Fruto de uma educação mercantilista e fluída, como diria
Bauman, o homem, ou seja, 97,5% dos mortais, eu arriscaria, navegam na
superficialidade da vida. Submersos no seu cotidiano e completamente anêmicos,
embora não percebam, diante das sutilezas e grandezas do estar vivo. Sua
atenção está voltada somente para funcionalidade das coisas, que nos fins de
semana são teoricamente dispensadas para dar lugar ao entretenimento, que é tão
sem conteúdo, tão vazio, que só revela ainda mais o seu vácuo existencial.
Esse homem do senso-comum não vê mais nada a ser explorado,
porque o mundo se apresenta como algo de contornos já definidos e sua compreensão,
comportamento, decisões, posicionamentos acabam por ser previsíveis demais. Um
espírito aprisionado ao funcional, escravizado aos ditames proclamados pela
maioria e refém de uma sociedade que consome e se apropria indiscriminadamente de
tudo de forma irreflexiva e ainda assim se porta de maneira presunçosa e altiva
frente ao que é diferente do seu modo de vida.
Esse vasto universo da superficialidade só revela como a
ideologia dominante tem a capacidade de sedar as pessoas, todos pensando igual,
acreditando que sua postura é digna, sendo que na maioria das vezes é somente
degradante, só que não tem ninguém para alertá-lo disso.
Para escapar desse reducionismo é preciso muito mais do que
questionar, duvidar. É preciso aceitar que não somos detentores da verdade, da
razão, e que erramos muitas vezes, que precisamos mudar o ângulo, o foco, a
paisagem, de quando em vez e não se limitar a aceitar tudo o que é nos
oferecido, por mais que seja de bom grado. E também deixar de lado essa postura
permissiva, indiferente e hedonista que domina nosso Ser, pois isso só destrói
nossos propósitos e nos afasta da riqueza e diversidade da vida. As coisas não
são imutáveis, elas estão o tempo todo em estado profundo de transformação e
você pode participar de tudo isso, bastando apenas não se entregar para a frivolidade
do senso comum de que tudo é do jeito que é e acabou.