quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Sorteio do livro "Do Cabaré ao Lar"




Olá, amigues! 
Para vocês que acompanharam as resenhas sobre o livro "Do Cabaré ao Lar", da historiadora Margareth Rago, tenho uma boa notícia:  Editora Paz & Terra  disponibilizou um exemplar para sortear aqui no Blog! 

O livro enfoca a primeira República do Brasil e problematiza a história social, revelando os desafios dos operários fabris, disciplinarização, a colonização da mulher, o mito do amor materno, a pedagogia paternalista dos patrões etc. Com uma riqueza de detalhes e documentos históricos, o livro é leitura indispensável para quem se interessa pela historiografia brasileira.

Para participar é bem fácil:

1. Você deve curtir a página da Editora Paz & Terra, clicando aqui;
2. Residir em território nacional;
3. Preencher o formulário abaixo.

O resultado sai no dia: 30 de Janeiro de 2015 e o envio será realizado diretamente da Editora para o sorteado.

Boa sorte!


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Do Cabaré ao Lar (2)


Hoje é o dia da segunda resenha sobre o livro Do Cabaré ao Lar – A utopia da cidade disciplinar e a resistência anarquista, Brasil 1890-1930 da historiadora Margareth Rago. Vou me concentrar na segunda da parte da obra que fala sobre a Colonização da Mulher, que pessoalmente foi bastante instigante e impactante.

Na primeira resenha falei sobre os conceitos de fábrica higiênica e satânica e remodelação dos ambientes de trabalho e da necessidade dos fabris de assemelhá-lo ao ambiente do lar. Agora Margareth Rago explicita sobre o papel da mulher nesta mudança de paradigma. Neste momento cabia a ela ser a “soberana” do lar, vigiar cada membro, seus horários, hábitos, prevenir qualquer desvio. Às mulheres pobres deveriam ter como modelo a postura da mulher burguesa. Forja-se uma representação simbólica: frágil, delicada, sentimental, vigilante, esposa-mãe-dona de casa e assexuada. Sua função essencial não era mais as longas jornadas dentro das fábricas, mas sim dentro do lar executando suas tarefas domésticas e exercendo a sagrada maternidade.

“Pouco importam os vários artigos que na imprensa operária cobram uma maior participação feminina nos movimentos reivindicativos de classe. Na prática, esses movimentos eram controlados por elementos do sexo masculino, que certamente tinham maior liberdade de circulação, maior acesso à informação e maior organização entre si. As mulheres deveriam participar enquanto filhas, esposas ou mães, isto é, na condição subordinada dos líderes.”

Neste período estabelecia-se o confinamento da mulher na esfera privada da vida doméstica e realizar-se através das conquistas do marido e dos filhos. E para as mulheres que não abandonaram seus postos de trabalho, cabiam sempre cargos de assistência e ajudantes sem nenhum poder de decisão. A imagem da mulher era retratada como servil por natureza, mãe-sacrifício.

O Mito do amor materno

O discurso que sustentará o mito do amor materno parte da classe “científica” dos médicos sanitaristas da época, que com as grandes taxas de mortalidade infantil, procuram demonstrar que a mulher possui uma missão sagrada e vocação natural para a procriação e a maternidade a fim de fundar um novo modelo formativo a ser seguido por todas as mulheres independentes da classe social.

A amamentação foi o primeiro tópico que mediou o discurso dos médicos sanitaristas, pois a prática não era recorrente tanto pela questão estética (nas mulheres burguesas) quanto econômica para as operárias que precisavam retornar aos postos de trabalhos decorridos o primeiro mês do bebê, o que resultava no aleitamento mercenário. “Os médicos propunham, então, que as mulheres fossem convencidas de sua vocação natural para a maternidade e aconselhadas sobre os perigos que a criança alimentada fora do seio materno poderia sofrer.”

Tanto quanto a escrava, a nutriz assalariada é condenada como portadora do vírus físico e moral da contaminação e posição desagregação da família. A partir desta figura da anormalidade é que se constrói a imagem da boa mãe; daí o papel moralizador da nova figura materna proposta pelo discurso médico como a guardiã vigilante do lar.”

A partir deste discurso o poder médico consegue penetrar dentro do interior das famílias redefinindo o papel de cada membro procurando persuadir as mulheres, tirando-o a liberdade de fazer suas escolhas com a alocução moralizante de que é dentro do lar, exercendo a maternidade que a mulher se realizará quanto a sua função natural estipulada pela natureza. E todas as mulheres que não iam de acordo com este novo papel instituído legalmente pela classe médica e pelo Estado estão no campo da anormalidade e colocavam em risco o futuro da nação. A profissionalização da mulher era tida como um desacordo com sua natureza.

Margareth Rago enfatiza a importância do filósofo iluminista Rousseau e a sua influência entre os homens cultos tanto da Europa como no Brasil no processo de redefinição do papel feminino dentro da sociedade. No livro Émile ele descreve como sendo a natureza da mulher a submissão e o sacrifício, a devoção e a ternura como traços inatos de sua personalidade.

Sequestro da sexualidade insubmissa

Os médicos sanitaristas também adentraram no submundo da prostituição e concluem que dentre inúmeras causas que levam às mulheres a abandonar seus lares para se prostituir estão: a ociosidade, preguiça, desejo incontrolável do prazer, desprezo pela religião e a falta de educação moral.
Desta forma a representação simbólica construída da prostituta é contrária ao da mulher honesta, que é casada, mãe, fiel, dessexualizada. São as putas a ameaça da boa conduta do homem e que subverte a lógica moralizante do mundo. Elas são as transmissoras de doenças, que colocam em risco a boa saúde dos homens e da sociedade, que corrompem os trabalhadores e que desvia a boa conduta. Partindo deste princípio elas devem ser enclausuradas dentro de espaços regulamentados e vigiados pela polícia e autoridades médicas.

É engraçado como esses conceitos que giram entorno da prostituta continuam tão atuais e pouco se avançou na reflexão sobre o papel desta profissão.

A autora Margareth Rago enfatiza diversas pesquisas e teses que tentam enquadrar anarquistas, criminosos e putas com a mesma configuração cerebral o que os distinguiriam das pessoas normais. “O ideal de puta para os regulamentaristas é a mulher recatada e dessexualizada, que cumpre seus deveres profissionais, mas sem sentir prazer e sem gostar da sua atividade sexual.”

Conclusão

Outro tema importante nesta segunda parte do livro é a emancipação da mulher, discussão presente na imprensa anarquista que engloba tanto a operária quanto a burguesa, já que ambas são oprimidas dentro de seus papéis. Ressaltava que a mulher tem a mesma capacidade de reflexão que o homem e a educação aparece como o meio mais importante de libertação e luta pela independência. Denuncia-se o caftismo em família. Discute-se o amor livre, novas propostas de relacionamento, o divórcio e o modelo moralizador do casamento.

O matrimônio apenas serve para abreviar a duração do amor, tornar odiosa a união. No lar, a mulher é escrava, o homem é o senhor; este tem o direito de mandar, aquela o direito de.... obedecer. [...] Como pode existir o amor entre uma escrava e um senhor? [...] Por isso se diz: o casamento é a morte do amor...” (O amigo do Povo, 2/8/1902)



sábado, 3 de janeiro de 2015

Do cabaré ao lar (1)



Recebi da Editora Paz e Terra o livro “Do Cabaré ao lar – a utopia da cidade disciplinar e a resistência anarquista”, da historiadora Margareth Rago. Ainda não conclui a leitura, mas sendo o livro tão instigante e fantástico resolvi dividir a resenha em partes.

O livro enfoca a primeira República do Brasil e problematiza a história social, revelando os desafios dos operários fabris, disciplinarização, a colonização da mulher, o mito do amor materno, a pedagogia paternalista dos patrões etc. Com uma riqueza de detalhes e documentos históricos, o livro é leitura indispensável para quem se interessa pela historiografia brasileira.

A primeira parte do livro enfatiza os conceitos da fábrica satânica e higiênica, o crescimento urbano-industrial e a tentativa de domesticação do operariado. Com a drástica mudança no modo de vida e no saber-fazer do trabalho, as pessoas são exploradas dentro das fábricas com longas jornadas, péssimas condições de higiene e segurança, violência física e moral, opressão, humilhação, o que resulta numa alteração profunda do modelo de vida no qual estavam submetidos anteriormente.

Com a eclosão de greves, destruição de maquinários e sabotagens proposto e executado pelas associações de trabalhadores, os fabris se viram na necessidade de dominação sutil e na alteração na estratégica de controle dos operários, que incluía tratá-los de forma individualizada para enfraquecer suas mobilizações coletivas e ignorar suas entidades de classe. Neste momento surge o conceito de fábrica higiênica e a atuação patronal que “foi marcada ambiguamente pela intenção de proteger os trabalhadores que viviam em condições deploráveis mas, ao mesmo tempo, de controlar e disciplinar todos os seus hábitos.” Foram realizadas algumas mudanças dentro do interior das fábricas, como tornar o ambiente limpo, iluminado, arejado, com oxigênio disponível para todos (!!!) de modo a se tornar mais aconchegante e parecido com o interior de seus lares. Todas as essas mudanças partiam do pressuposto de minimizar o descontentamento da classe,  minimizar os prejuízos dos fabris e potencializar sua produção. Acreditava-se que mudando o ambiente seus trabalhadores teriam comportamentos mais dóceis e disciplinados.

Mas o que queria o movimento anarquista? Apropriação das fábricas e reorganização do processo de produção pelos trabalhadores, já que eram eles que conheciam e dominavam a técnica de trabalho na prática, e assim superar a divisão social do trabalho realizada pelo sistema capitalista, colocando abaixo a hierarquia despótica. “Também os anarquistas sonhavam com uma sociedade em que o desenvolvimento da tecnologia libertaria o homem do “reino da necessidade”, permitindo uma vida mais livre e criativa, onde o trabalho seria transformado enquanto atividade de autocriação da humanidade.”

A autora reforça a ausência de publicações que evidenciasse as condições de trabalho dos operários por parte da imprensa oficial, o que mostra o desinteresse do poder público pela situação dos trabalhadores no Brasil. Cabendo aos jornais anarcossindicalistas denunciar a conjuntura em que se encontravam os proletariados.

Vejam o sumário:




A inveja, o caráter e o vazio interior


Ninguém é perfeito, ninguém é coerente ou dono da razão. Todo mundo guarda dentro de si os seus conflitos, defeitos e impulsos, entretanto, existe algo chamado caráter que desviado ultrapassa todos os limites do bom senso e boa convivência.

"O melhor indicador do caráter de uma pessoa é como ela trata as pessoas que não podem lhe trazer benefício algum".Abigail van Buren
Dentre muitos sentimentos obscuros que permeiam o interior de algumas pessoas e que eu creio ter alguma ligação com o caráter está a inveja: uma paranóia de querer o que é do outro, querer entrar na história do outro, e como se não bastasse o desejo tem quem precise destruir outras histórias para tentar afirmar ao seu próprio ego do que é capaz, revelando mais do que um potencial maligno, uma tremenda insegurança e falta de amor que nutre por si mesmo. Para o invejoso falta coragem de construir sua própria vida e sua própria história, pelo medo do fracasso, pela humilhação ou falta de brilho que seus caminhos possam ter.

O invejoso é compulsivo e fica na espreita de qualquer conquista. Com suas lentes de aumento, escondendo uma miopia doentia nos olhos, ele engrandece qualquer ato ou o diminui conforme suas necessidades interiores.  Invadido pela tristeza, frustração, revolta e baixa autoestima, essas pessoas atacam, mascaram e criam suas próprias justificativas, até mesmo com mentiras mirabolantes.

O mais surpreendente é que o invejoso sempre tem seus próprios alvos e miras, e apesar disso não consegue reconhecer que as pessoas não são melhores do que as outras, que cada um dentro do seu casulo também tem os seus conflitos, suas pendências e que mundo nenhum é cor-de-rosa, perfeito, com textura de algodão. Estamos todos no mesmo planeta, vivendo, aprendendo, errando, construindo, demolindo, buscando, sonhando etc.

Talvez o caminho para a restauração de sua própria paz interior seja através de um processo terapêutico e com a consciência de que a história de sua própria vida também merece valor, investimento e interesse, para que assim não seja necessário comparar sua grama com a do vizinho.

“Para evoluirmos enquanto humanidade precisamos aperfeiçoar nossa capacidade de nos relacionar, ou seja, precisamos aprender a nos relacionar com o outro sem machucar. Esse é o nosso maior desafio. Nesse “outro” está inclusa a natureza, a nossa casa. Precisamos aprender a conviver em harmonia, preservando, não destruindo. Destruir é muito fácil. Cortar o tronco de uma árvore é simples, mas não é possível colocá-lo de volta. Estamos agora colhendo os frutos do que plantamos, ou melhor, do que não plantamos (destruímos). Estamos sendo convidados a rever nossas ações, nossos hábitos e condicionamentos, pois a forma como vivemos até agora não tem funcionado.”
Sri Prem Baba


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A Ditadura que mudou o Brasil – 50 anos do Golpe de 1964



Organizado por Daniel Aarão Reis, Marcelo Ridenti e Rodrigo Patto Sá Motta, o livro A Ditadura que mudou o Brasil – 50 anos do Golpe de 1964, da Editora Zahar traz um panorama muito rico do que foi o Golpe Militar e suas transformações para o país, que ainda mantém uma cicatriz aberta decorrido os 50 anos após a tomada do aparelho governamental pelos Militares.

O livro traz pesquisas bastante atuais, leitura imprescindível para os estudantes, historiadores e para o público geral que se interessa pela política brasileira. A obra é um convite para se refletir o passado e o presente com as conseqüências deixadas por um regime que propunha uma modernização conservadora autoritária, com a participação e apoio da sociedade civil. Entendem-se também como apoiadores aquela parcela da sociedade indiferente e omissa.  

A obra é objetiva e completa. Caminha de forma didática ao período histórico que antecedeu o Golpe, indo do Estado Novo de Getúlio Vargas, a política de JK, a renúncia de Jânio Quadros e o Golpe que tirou João Goulart do poder até os resquícios da Ditadura que perduram atualmente.

Primeiramente, a Ditadura Militar se instaurou com o objetivo de conter um suposto avanço do comunismo e impedir a corrupção com o suporte da classe empresarial, as oligarquias rurais, a classe média, instituições religiosas e a imprensa. Enquanto isso a esquerda estava divida em divergências quanto a maneira de se reverter o quadro político do país. Mas o Governo Militar não hesitou em prender, torturar, matar e exilar seus adversários dentro dos longos 21 anos em que permaneceram no comando.

O cenário econômico que marcou o período ditatorial foi de desenvolvimento à custa da democracia e com grande concentração de riquezas. Quem se beneficiou do milagre econômico não foi exatamente a massa populacional. E em 1985 o Brasil se encontrava endividado, com inflações exorbitantes e completamente ferido com seus mortos, feridos e desaparecidos.

É difícil sintetizar um livro que traça um panorama histórico de 21 anos de Ditadura Militar e as conseqüências posteriores ao regime, mas a obra é completa, elucida as características de cada período, não deixando nada passar despercebido. A sensação que fica quando se conclui o livro é de incômodo, pois não é possível fazer este mergulho em fatos do passado e não associá-los às feridas que ainda permanecem abertas e expostas.  




terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O que o dinheiro tem a ver com felicidade?



O que o dinheiro tem a ver com felicidade? NADA. Caso contrário, pessoas ricas não sofreriam. Mais um par de sapatos é só mais um par de sapatos, mesmo que você perceba isso daqui a um ano quando fizer uma faxina no guarda-roupa. Se existe uma coisa que eu não compreendo é a necessidade de afirmação pelo dinheiro. Não é preciso ser tão sensível para saber que ele pode comprar pacotes de viagens, um mestrado, um saco de jujubas ou uma conta luz e nunca, nunca poderá comprar afeto, relações, paz de espírito, sabedoria etc. Dinheiro é ótimo, resolve uma série de pepinos que nós mesmos arrumamos para a nossa vida, mas ele jamais será a redenção. Como isso ainda não é óbvio?! Apelando para o clichê: o dinheiro não compra felicidade. Existe um estudo científico que compara o nível de felicidade de uma pessoa que ficou paraplégica e quem ganhou na mega-sena em um ano. Para o espanto da nação, os dois tipos de pessoa têm o mesmo nível de felicidade. Leia na íntegra aqui: 

Há quem se orgulhe que sua consulta custe 200 reais por 50 minutos e que isso seja a verdadeira realização, poderia até ser se não houvesse a necessidade de esfregar isso para o mundo. Acho engraçadíssimo uma pessoa querer mostrar uma imagem de bem sucedida debaixo da asa dos outros, sem conquistar o mínimo de auto-suficiência e autonomia com a própria vida. Xuxa ganha mais do que isso apresentando um programa tosco. Quem é muito bom no que faz e muito bem remunerado não tem o péssimo hábito de soprar isso ao vento ou jogar isso na cara dos outros. Essa forma exagerada de se enxergar é a manifestação de um ego ferido, invejoso e mal resolvido – grandes máscaras para esconder a falta de amor que sentem por si mesmos. Escrevo tudo isso por ter vivenciado uma situação completamente insana relacionada com uma pessoa altiva, soberba e ignorante da minha própria família, o que me faz crer que até mesmo a família nós podemos escolher. Consangüinidade não move absolutamente nada em termos de empatia e amor. Todas as relações são construções de afeto ou desafeto, quer façam parte da sua genealogia ou não.

Conheço pessoas com doutorado, ricas e humildes. Conheço pessoas com mestrado, bem de vida e humildes. Conheço pessoas com mestrado, que pensa ter uma condição que não tem e soberbas. Conheço pessoas com ensino fundamental incompleto, ricas e humildes. Assim como o inverso de tudo isso. A questão não é o nível de escolaridade ou saldo da conta bancária, é a HUMANIDADE que habita dentro de cada um. Valores que adquirimos com as nossas vivências.

Tudo isso é só um reflexo da educação que recebemos. Fomos educados a competir um com os outros pelo viés materialista, o pior tipo de educação que um indivíduo pode ter na vida. E eu caminho no sentido oposto a isso, os valores que eu aprendi dentro da casa da minha mãe são inversos a tudo isso. Não bajulo ninguém. Ela me ensinou a respeitar as pessoas e valorizar a felicidade, não o dinheiro. Por esta educação que eu recebi é que hoje eu prefiro colecionar momentos incríveis com pessoas queridas do que dinheiro na poupança. O que eu ganho é o suficiente para custear minhas despesas, parcas extravagâncias, e sou muito feliz assim. Tenho minha casa, minha filha, meu marido, pessoas queridas, uma piscina de plástico no quintal para os dias mais quentes, meus livros na estante, muitos sonhos e problemas como qualquer outra pessoa. 

O problema não é dinheiro em si, mas na dificuldade do homem se relacionar com ele. A soberba é uma enfermidade a ser tratada, pelo amor ou pela dor. Quem gosta de exibir segurança no que faz geralmente esconde uma tremenda dificuldade em sua tomada de decisões. Do lado oposto da soberba mora a humildade, uma virtude que só quem possui autoconhecimento pode ter.

Para finalizar, como já disse Arnaldo Antunes: dinheiro é um pedaço de papel.





quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Reflexões sobre 2014


Para onde for sua atenção é ali que a vida irá crescer. Assim você cria as circunstâncias que virão ao seu encontro. Pergunte a si mesmo: o que me esvazia e o que me preenche? Desvie a atenção das áreas que drenam seu poder. Descubra o que faz seu coração bater mais forte e coloque sua energia naquilo. Descubra seu propósito e essa será a sua paixão. Então não haverá tempo para que ervas daninhas reivindiquem sua atenção.
Dadi Janki

Hoje, ao acordar, li esta mensagem e ela ressoou dentro de mim, pois depois de tanto tempo finalmente venho fazendo coisas e cultivando hábitos que realmente fazem meu coração bater mais forte e enxergar um sentido na minha existência, mesmo que ele não seja tão abrangente quanto eu gostaria que fosse, mas já é um caminho. Após a pequena leitura comecei a pensar no meu ano e como ele foi confuso e ao mesmo tempo libertador.

2014 foi um ano muito difícil, não só para mim e na esfera geográfica do meu umbigo, mas para muitas pessoas. Talvez seja Saturno, colocando pressão para mudarmos os degraus da escada e das perspectivas do olhar. Entre crises existenciais e rompimentos, entre novos caminhos e dificuldades, a notícia é que 2014 continua até março de 2015, até lá nosso papel é segurar os forninhos como a pequena Giovana.  Paciência talvez seja a palavra-chave.

Durante algum tempo vaguei procurando este propósito e ele veio na forma em que eu mais gosto de colocar minhas energias: no estudo, no conhecimento, no processo dialético que ele coloca os indivíduos de se construírem destruindo alicerces antigos. A licenciatura de História chegou como um projeto de vida e mesmo ainda no inicio de toda a jornada já sinto o quanto ela provocou mudanças dentro de mim. Uma delas é sair do reino do achismo, da opinião. Elas pouco interessam e em nada mudam os fatos, exceto pelas energias de ânimo ou mal estar (sua ressonância mais óbvia).  Isso justifica minha parca produção no blog este ano, que surgiu sem meta, tomou um rumo e provavelmente irá tomar outro. Não é possível fazer mergulhos profundos sem deixar que as mudanças naturais aconteçam por si mesmas e se tentarmos impedir isso certamente não valerá de nada o esforço.

Neste tempo que em me formei em jornalismo e comecei a fazer história foram 3 anos. 3 anos sem estudar, sem aquelas cobranças intelectuais que para mim sempre foi um desafio e um prazer. Pela primeira vez tenho uma ambição, tenho o desejo de ser muito boa no que eu estou fazendo. Observei que nesses 3 anos minhas palavras murcharam e eu não posso ficar sem estudar, pois não estudar é não conhecer o que ainda está obscurecido. É padecer num reducionismo, num achismo completamente sem fundamento, irracional e ilógico. Achar que sabe tudo é pior soberba que um ser humano pode cometer contra si mesmo.  É como recusar que as nossas potencialidades sejam desenvolvidas em prol de qualquer outra coisa do mundo real que nos torna mecânicos - máquinas a reproduzir aquilo que óbvio deseja.  Dentro da mediocridade humana que predomina e se apossa dos pensamentos, é papel de cada um, em sua individualidade própria encontrar subsídios que façam emergir além da superfície. Não é uma tarefa fácil, mas é ela que confere sentido e valor a nossa existência.  

Voltando a reflexão de 2014 e como ela fez uma tremenda dança das cadeiras, hoje me ponho a estar nos lugares e com pessoas que no interlúdio da ausência faz com que meu coração vibre em estar próxima, dos geograficamente distantes e próximos. Ironia da vida, quem você mais gostaria da presença é quem está em momentos esporádicos com você, talvez isso crie uma áurea mágica nas pessoas.  Isso, entretanto, não fez com que eu desvalorizasse os que estão próximos, são eles que dão a alegria do dia, a cor vibrante mesmo quando tudo amanhece em tom pastel sob a nuvem furtiva da saudade. Tenho primado pela qualidade de todos esses encontros e que eles possam ir além de conversas tolas sobre a meteorologia. Isso necessariamente também incluiu um certo recolhimento meu das redes sociais após as eleições. Foi muito desgaste emocional para pouca coisa. A cada dia venho ficando mais distante do virtual e mais presente na realidade, seja olhando a Kalindi dançar na sala, ou lendo meus livros (que estão se acumulando na estante) ou fazendo uma coisa diferente para jantarmos. Tenho preguiça, muita preguiça de olhar a timeline do Facebook, de responder as inúmeras mensagens de whatsapp (sobretudo as dos grupos que atropelam o irrelevante) e de me fazer presente para perfis. Venho acessado de forma objetiva as páginas do meu trabalho, mas sem grande envolvimento e perda de tempo com o que não interessa. Perdi a vontade. Estou fechada para balanço. F5.

 2014, sobretudo seu inicio, foi o ano do cansaço para mim. Cansaço de fazer as mesmas coisas, de ouvir as mesmas ladainhas e não ver o cenário mudar. Acontece que neste ínterim eu mudei, mudei muito. Perdi o medo de todas as coisas que me assombravam e isso me deu coragem para assumir quem realmente sou e todas minhas características que vão ao desencontro do socialmente aceitável.  Não desejo ferir, nem machucar ninguém, mas também não estou disposta a agradar sufocando a mim mesma. Assim como me vejo muito mais aberta a vivências e desafios do que outrora, aceitando minha alma cigana que por algum tempo foi sufocada pela mesmice dos dias.

Sou grata ao universo e a dinâmica da vida por ter postos pessoas no meu caminho e tirado outras. Axé?! Axé! Mãos invisíveis que não são nem tão mãos e nem tão invisíveis quanto a própria natureza do devir. Assim foi (e está sendo) 2014, tirando coisas do caminho, colocando tantas outras, desde obstáculos a mais livros para que eu pudesse de forma criativa encontrar o instante de paz no meio do caos. Entre forças de determinação e preguiça vou guiando meu corpo a este novo propósito e esperando que 2015 seja mais ameno.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Mate-me quando quiser, Anita Deak


Hoje vou escrever a resenha do livro Mate-me quando quiser, da escritora e jornalista Anita Deak. Desde que a conheci fui seduzida por suas palavras, sempre tão certeiras e envolventes e quando soube do lançamento do livro me roí de curiosidade para lê-lo. O enredo já é diferente de tudo o que habita o imaginário comum, a personagem principal (nem tão principal assim com o desenrolar da história) contrata um matador chamado Soares para tirar sua própria vida. Ela paga, manda uma passagem para Barcelona, o local onde quer viver seus últimos instantes, e pede que o serviço seja feito dentro de 4 meses.



Acontece que mais 3 personagens entram na história e mudam a perspectiva de vida da Mulher e do próprio matador.  A história de todos eles se cruzam, se extrapolam. Neste ínterim onde todo o desenrolar da narrativa transcorre, somos transportados para dentro deste cenário e fica difícil sair, o que me explica ter engolido o livro em um pouco mais de 24h. Minha madrugada foi embalada pelas palavras da escritora Anita Deak, que usa os diálogos dos personagens de maneira sutil, poética e emblemática para nos falar de escolhas, de possibilidades, surpresas numa delicadeza estética sem fim.




Temos muitas leituras dentro de um único livro habitando a vida das 5 pessoas que se envolveram na trajetória de suicídio (ou tentativa) da Mulher. Nós, leitores, somos agraciados com diálogos ricos que nos convidam a uma reflexão sobre a fé, o conceito de família e sentimentos.

Por se tratar de um livro extremamente dinâmico e cheio de mistérios, não cabe a mim contar sobre o desenvolvimento da história. É preciso lê-lo. Urgente. Foi assim que ele chegou até a mim, de maneira urgente. Tão urgente que o correio chegou e fui até a padaria sentar, tomar um café e ler, ler até quando o relógio se mostrasse meu amigo.

E encerro esta resenha assim, dizendo para vocês que o “Mate-me quando quiser” é mágico. Ele te transporta, ele te faz viajar, trabalha com todo o seu repertório imaginativo. Recomendo a leitura para ontem!


Você pode adquirir o livro pela Saraiva, clicando aqui. 


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Felicidade e esquecimento



Você é feliz? Do que precisamos para sermos pessoas felizes? Mais viagens? Mais dinheiro? Mais relacionamentos plenos? Mais sucesso? Mais paz de espírito? Nietzsche diz que para sermos felizes precisamos nos esquecer, onde no êxtase da felicidade nós nos esquecemos de tudo.

Abaixo segue alguns trechos do livro Segunda consideração intempestiva: da utilidade e desvantagem da história para a vida.

 “Quem pode se instalar no limiar do instante, esquecendo todo o passado, quem não consegue firmar pé em um ponto como uma divindade da vitória sem vertigem e sem medo, nunca saberá o que é felicidade, e ainda pior: nunca fará algo que torne os outros felizes.”

“Um homem que quisesse sempre sentir apenas historicamente seria semelhante ao que se obrigasse abster-se de dormir.”

“Penso que esta força crescendo singularmente a partir de si mesma, transformando e incorporando o que é estranho e passado, curando feridas, restabelecendo o perdido, reconstituindo por si mesmo as formas partidas. Há homens que possuem tão pouco esta força que, em uma única vivência, em uma única dor, freqüentemente mesmo em uma única e sutil injustiça, se esvaem incuravelmente em sangue como que através de um pequenino corte.”

“E isto é uma lei universal: cada vivente só pode tornar-se saudável, forte e frutífero no interior de um horizonte; se ele é incapaz de traçar um horizonte em torno de si, e, em contra partida, se ele pensa demasiado em si mesmo para incluir no interior do próprio olhar um olhar estranho, então definha e decai lenta ou precipitadamente em seu caso oportuno.”


É impossível ser feliz sem o esquecimento. Desapegue-se de tudo o que não faz bem, das más recordações e tudo o que consome sua energia. Deixe ir o que passou para que novos horizontes possam ser observados. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Sobre Educação e professores


Já tem algum tempo que eu queria escrever sobre Educação. Esse tema tem batido muitas vezes em minha porta, tanto por conta da maternidade, como pela licenciatura que estou cursando. 

Acredito que o papel do educador é de suma importância e precisa sempre ser revisado. Hoje é muito comum que os pais enxerguem a escola apenas como um depósito de crianças, e que lá ele será educado, ensinado e preparado para o mundo. Família e escola precisam caminhar juntas. Assim como é o papel da escola desenvolver a autonomia da criança, também é dever dos pais, por isso a prática pedagógica precisa estar em sintonia com as convicções da família.


Sendo a passagem da infância uma etapa primordial no desenvolvimento do ser humano, todo o cuidado é pouco com o que é ensinado nas escolas. Quando puderem leiam este texto do Arnaldo Preto sobre o ciclo de sete anos. Mas vou colocar uma passagem que achei fantástica:

Aqueles primeiros sete anos são os anos em que você é condicionado, é preenchido com todos os tipos de idéias que irão atormentá-lo ao longo de toda a sua vida, que irão distraí-lo de sua potencialidade, que irão corrompê-lo, que nunca irão lhe permitir ver claramente. Elas sempre virão como nuvens diante de seus olhos e irão fazer com que tudo fique confuso. As coisas são claras, muito claras. A existência é absolutamente clara. Mas os seus olhos têm camadas e mais camadas de poeira. 

E toda essa poeira foi arranjada nos primeiros sete anos de sua vida, quando você era tão inocente, tão confiante, que qualquer coisa que lhe fosse dita você aceitava como sendo verdadeira. E mais tarde, será muito difícil você descobrir tudo aquilo que entrou em seus alicerces. Terá se tornado quase parte de seu sangue, ossos, de sua própria medula. Você perguntará mil outras questões, mas você nunca perguntará a respeito dos alicerces básicos de suas crenças. 

A primeira expressão de amor para com a criança é deixá-la absolutamente inocente em seus primeiros sete anos, sem condicionamento, deixá-la por sete anos completamente selvagem, uma pagã. Ela não deveria ser convertida ao hinduismo, ao islamismo, ao cristianismo. Qualquer um que esteja tentando converter a criança, não tem compaixão, é cruel, está contaminando a própria alma de um viçoso recém-chegado. Antes mesmo que a criança tenha formulado perguntas, ela já terá recebido respostas com filosofias , dogmas e ideologias pré-fabricadas. Essa é uma situação muito estranha. A criança não perguntou a respeito de Deus e você já está lhe ensinando.  Por que tanta impaciência? Espere!

 Se algum dia a criança demonstrar interesse por Deus e começar a perguntar a respeito, então tente dizer a ela não apenas a sua idéia sobre Deus, porque ninguém tem qualquer monopólio. Coloque diante dela todas as idéias de Deus que estiveram presentes em diferentes povos, em épocas diferentes, por religiões, culturas e civilizações diferentes. E lhe diga: 'Você pode escolher dentre essas aquela que mais lhe atrai. Ou você pode inventar a sua própria, se nenhuma estiver adequada. Se todas lhe parecerem defeituosas, e você achar que pode ter uma idéia melhor, então invente a sua própria. Ou se você achar que não há jeito de inventar uma idéia sem falhas, então abandone toda essa história, ela não é necessária. Um homem pode viver sem Deus.' 

Não há qualquer necessidade de que o filho tenha que concordar com o pai. Na verdade parece muito melhor que ele não tenha que concordar. É assim que a evolução acontece.


Tudo tem seu tempo.

É o papel da escola e dos pais reconhecer a diversidade do ser humano e capacitar os pequenos a não se estranharem nas diferenças, para que estes sejam adultos esclarecidos, livres de preconceitos e aptos para escolherem por si mesmos, prontos para fazer uso de sua própria razão e sensibilidade. O conhecimento não pode esbarrar em obstáculos e retornar, não pode se acuar em zonas desconhecidas e intocadas. Tudo pode e deve ser discutido, falado, pensado, de acordo com o desenvolvimento de cada um.

Precisamos respeitar o tempo da criança. Ela terá tempo para apreender o mundo, não é necessário - e na verdade é assustador - mergulhar uma inocente criança num mundo de dogmas. Sejam eles religiosos ou políticos. Nosso papel consiste em prepará-la, oferecendo autonomia e liberdade para que ela possa pensar por si mesma, observar suas potencialidades e dificuldades, auxiliar na caminhada, mas sempre deixando que eles caminhem, mesmo que isso signifique alguns escorregões. Prepará-los para a vida e não para o vestibular ou o mercado de trabalho.

Sabemos que este modelo de educação que perdura ainda na grande parte das escolas falhou. Não podemos mais pensar que aprender é decorar eventos, fórmulas e datas. Isso só fez com que as pessoas não aprendessem a desenvolver suas próprias ideias. Não somos sujeitos no mundo, somos sujeitos que criam o mundo.

Pensem nestes ciclos de 7 anos. Pensem sempre. Respeitem.

Hoje é dia dos professores, e por isso, gostaria de lembrá-los que todos nós somos professores, mesmo não encarando uma sala de aula. Simplesmente tudo o que comunicamos aos outros e tudo o que chega até nós são expressões de um conhecimento, seja ele adquirido por métodos empíricos ou não, e eles se propagam, ecoam. Somos responsáveis por isso.

Tudo o que é dever da escola também é dever dos pais.