terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Doce lembrança

Todos iguais: felizes ou infelizes todo o instante se esvai da mesma maneira, não há flores reais, sorrisos concretos. Existe um tempo despedaçado, finito e apressado: nunca haverá tempo de sobra, os sonhos ficarão para a sobremesa e o compromisso, que poderia ser adiado, será cumprido como uma exigência da vida que não pertence ao sujeito.

Comandados pelos compromissos, que vão nos acorrentando durante a vida, os homens esquecem de si mesmo e das impossibilidades que poderiam ser reais. O instante é um cuspe que seca rápido.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Inexaurível

Às arvores na estante fazem volume – diminuo o som e fecho os olhos para ouvir suas folhas, que batem secas no teto da casa. As coisas que se escondem na estante: já nem sei mais o que habita por ali, virou uma selva perigosa onde poucos aventuram a organizá-la. A estante já não tem importância, ela não tem espaços vazios, dimensões infinitas – era criança e entrava na gaveta maior, mas o tempo passou e nem mais um livro, nem mais uma traça, a estante ficou por acidente. Os livros, que são muitos, se espremem entre seus braços, e a estante coitada, é uma mãe cansada que já não suporta o peso dos filhos no colo. Os piolhos nas crianças: as traças nos livros. A prateleira quebrada: a mãe doente e velha. Não posso deixá-la que morra, farei uma pátina, comprarei um novo vidro, uma nova rodinha para seus pés – cadeira de rodas. Eu? Enfermeira de estante e babá de livros.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A lua lá

A lua parece uma bolacha. Não consigo acreditar que a lua da NASA seja a mesma lua que eu vejo da minha janela. São dois objetos antagônicos que não se completam. Minha lua é romântica e tem gosto de cera de abelha, brilha, reluz como uma pedra e está sempre ali. Também quero engolir a lua, mas só quando tudo está escuro. Descobri do que devo me alimentar. Sei exatamente das minhas necessidades. Preciso comer a lua para sobreviver a noite, as estrelas são pequenas sobremesas que degusto homeopaticamente até encher meu corpo de luz cósmica. Como, porque comer é fazer renascer a vida. Comer é o sepultamento da semente, engulo, ela brota em mim e renasce.

O corpo morto volta a terra porque a vida é um ciclo, a mãe pede de volta o que ela deu. A semente, a lua, a terra – pequenos elementos que compõe o cenário do universo. O universo é fundo e irreconhecível, quanto mais se busca, menos se compreende. Vejo o universo como uma tela gigante que meus olhos não conseguem emoldurar, é imenso, é infinito. Todo infinito é finito, uma hora se acaba, mas não percebemos porque não estamos mais aqui. A semente, a lua, a terra e o universo – grandes elementos que compõe a insignificância do homem. Não somos nada e jamais seremos, porque somos metade de qualquer coisa fragmentária. Não acrescentamos. Somos o acaso, o erro irreversível, o dissonante e isso é o que temos de melhor. A lua. O fim não é necessariamente o fim, sempre tem alguém para começar algo novo. A lua.

Um dia, alguém há de entender esses anseios e saberá matematicamente decifrar cada palavra, cada significado que está escondido em uma letra. Os símbolos e as metáforas existem para serem usadas até a exaustão, é o seu dever me servir. Engolir o cósmico, engolir as metáforas que eu não sei criar, engolir um pedaço de pão, a morte que circula. Chega. São sempre os mesmos pontos, que eu não percebo e ele rechaça por serem assíduos demais, acusam-nos de entrarem na frente das palavras mais importantes. Um assassinato das últimas palavras, os pontos não podem ser raros, mas sim contínuos e ininterruptos. Me corrompo? A lua.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Distorção


Passamos quase a vida inteira fazendo o que nos é exigido e não o que gostaríamos de fazer. Um momento: Esticar as pernas. Nossos pensamentos são contaminados e de repente eu tenho medo - do futuro próximo que não tarda e do presente. O dia está quente e penso em outras épocas, quando podia esticar as penas e colocar a cabeça para funcionar. Tornei-me mecânica, faço o que pedem e não o que eu penso, o que eu sinto. "Eu" ficou na esfera contemplativa - não existo mais. Agora, sou o nome do cartório, sou um cargo pequeno, todo mundo manda e mente. Eu não penso. Que seja apenas um estado temporário, minha bem-aventurança está escondida em algum lugar, algumas pedras a tampam e eu não consigo enxergá-la. Sou míope neste instante.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Sobre o nada


Eu queria poder falar sobre a mística que acompanha os dias de chuva, mas estou passando por uma crise de criatividade e simplesmente não consigo escrever nada que não diz respeito ao trabalho. Estou sofrendo com essa deficiência temporária e preciso pensar em alternativas de driblar a ausência de poesia no meu discurso. Pensei em ler mais, porém falta tempo, disposição. Falta tudo! Queria poder ficar sentada aqui, ouvindo a chuva batendo no chão, o ruído dos ventos, sentir o frio que corta meus pés. Queria apagar a luz; Os dias chuvosos combinam com a escuridão. As tartarugas são os dinossauros de hoje.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Decodificando humildade

Quando paramos para investigar alguns conceitos que, certamente, já se encontram com significados cristalizados, nos deparamos com algumas convergências. No caso, analisaremos a humildade e o valor que ela tem dentro da nossa sociedade e que tipo de indivíduos ela produz. Determinados adjetivos, quiçá todos, são carregados de valor polissêmico e podem significar muitas coisas de acordo com o repertório que carregamos.
A humildade sempre esteve qualificada como virtude, mas, Baruch de Espinosa, nos propôs outra leitura sobre humildade, que seria no caso o poder de nos ocultar diante de nossas potências, de esconder e disfarçar nossas qualidades e realizações. Hoje entendemos como humilde àquela pessoa que fica sem graça ao ser elogiado por um atributo que lhe é merecedor, como se não fosse digno de um elogio. Espinosa diz que esse comportamento é autodepreciativo e rebaixador e que não devemos esconder nossas habilidades, e de nenhuma maneira isso seria um sinal de soberba. O individuo soberbo é aquele que necessita de elogios e considerações quando realiza um feito. Ter plena consciência de nossas capacidades não nos reduz a indivíduos egoístas e arrogantes, pelo contrário, nos faz conhecedor de nossas limitações.
Quando nos conhecemos temos a capacidade de identificar quais são nossas maiores disposições para a feitura de um bom trabalho e, desta forma, acabamos por reconhecer, até mesmo de forma maniqueísta, o que não sabemos e temos dificuldade de aprender. Os limites entre humildade e soberba são tênues, mas facilmente apreendidos quando admitimos quais são nossas limitações.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A náusea


Se alguém me perguntar do que se trata o livro “A náusea”, de Jean-Paul Sartre, certamente não saberia responder. Acredito que determinadas histórias e sensações são praticamente impossíveis de se descrever. Antoine Roquentin, o personagem principal do livro, faz comentários valiosos sobre algumas coisas da nossa existência, que na maioria das vezes passam por nós despercebidos; Às vezes não notamos que existimos, pois caso notássemos, sentiríamos o fardo peso que carregamos dentro de nós. Penso que vamos “levando” nossa vida quase que mecanicamente. Só compreendemos que existimos quando transborda nossas inquietações e elas se esparramam no chão. Pensamos que temos hábitos e manias e esquecemos que são os hábitos que nos fazem escravos do funcional e não ao contrário.
Devemos escolher o que queremos pra nossa vida: narrá-la ou vivê-la. Roquentin diz que o homem é sempre um narrador de histórias, das suas e a dos outros; Não sei qual das duas opções é a mais difícil, talvez viver exija mais esforço. Mas certamente não é possível ser tão maniqueísta a ponto de escolher apenas uma alternativa, é por isso que somos surpreendidos pela tal náusea; Vivemos em espiral sem perceber que nós somos a própria náusea e se pudéssemos, vomitaríamos nossa existência.
No livro “Idade da Razão”, Sartre diz que existir é beber a si mesmo sem sede.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Les chemins de l'art


Existem inúmeros questionamentos acerca da arte, que os próprios artistas não conseguiram ao longo do tempo replicar. Assuntos estes que acabaram se tornando objeto de estudo da Filosofia, mas especificamente a disciplina de estética. Quando analisamos a arte antiga, como as pinturas rupestres e bustos egípcios, percebemos que elas tinham uma finalidade específica e não eram consideradas obras de arte pelos seus criadores. Nas atuais produções artísticas, que já ultrapassaram todos os limites da contemporaneidade, fica difícil identificar o que de fato é uma obra de arte. O público, em geral, não tem contato com a obra de fato, mas com as suas reproduções nos meios de comunicação, como a Internet e a televisão. A arte tem uma finalidade? Qual é o objetivo de uma obra? Ela deve ter um objetivo específico?
Hoje, encontramos exposições de arte que interagem com o público, e que pode até mesmo ser interferido por quem aprecia. Acabaram-se as correntes artísticas e escolas que homogeneizava o estilo. Todas essas interrogações podem ser explicadas com o advento da era moderna, que acabou por extinguir as fronteiras. Escrever a história da arte até o presente é uma atividade complexa, pois a liberdade de experimentação deixa cada vez mais difícil concentrar em um só “ismo” todas as novas propostas e tendências do século XXI. Torna-se impossível escrever cronologicamente a história da arte e o caminho seguido pelos artistas, que trabalham de forma individual e mais voltados para balbúrdia midiática do que para as sensações que suas obras podem causar em quem as aprecia. Assim como todos os objetos se tornam comercializáveis pela mídia, a arte se tornou mais um produto nas imensas e globalizadas prateleiras.
Obviamente que existem magníficas obras contemporâneas, que são dignas de ser chamadas de arte e sabemos que elas acompanham a ciência, tecnologia e o pensamento que envolve essa época e, ao mesmo tempo, serve como uma válvula de escape desse turbilhão sufocante de informações. A arte não deixa de ser uma expressão e registro dos valores que predominam num determinado período. Não é apenas o clássico que merece ser reverenciado, pois cada escola, dentro do seu tempo, também quebrou barreiras e tabus e instalou na sua época, formas e técnicas que eram deveras chocantes e irreverentes.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Les quatre saisons


Parece que dentro de mim existem pedaços de todas as estações do ano. Elas interferem no meu humor, na minha produção textual e literária e no significado dos objetos que me cercam. No Outono, todas as coisas me soam incognoscíveis. Um período criativamente infértil; As palavras não fluem e os dias demoram a passar. É uma época em que meu coração-órgão sente uma leve saudade, mas não rende frutos nem anseios. Sinto vontade só de andar pelas matas, sozinha e esquecer de tudo e todas as coisas.
O Inverno, bem diferente do Outono, é fértil, criativo e preguiçoso. Eu só sinto saudades! Lembro dos ventos e dias frios que senti. Nessa época quero ir a Tinguá, mas no próximo, quero ir a Serra do Roncador, ver o que ficou perdido por lá e sentir a energia da natureza.
A Primavera é alegre, cheia de cores, reuniões e histórias para contar, me lembra os queijos e vinhos que já degustei. Adoro sentir a primavera, o espírito das flores, o cheiro das cores e a invasão da beleza nas ruas cinza. Não tenho muitas lembranças da primavera; Nunca fui a Paris.
No verão, me encolho como se estivesse com frio, ele é tumultuoso e suado. Tem muita gente aglomerada em espaços pequenos e mesmo que seja amplo, nunca há espaço suficiente para todos nessa estação. Então, eu me recolho. Os sons são ensurdecedores, há pânico e alvoroço na cidade, isso me causa náusea. O verão é o período transitório das belas bundas e dos braços fortes, tudo o que não interessa aos meus olhos cansados.
Mas termino falando do Outono, onde pareço ser acometida por sensações típicas; Ora sou uma folha leve caindo no chão, ora sou fria e café como o Inverno, bastando para isso, os ventos fortes dessa estação.



P.S - O Outono me lembra o "Império das Luzes" de René Magritte.

quinta-feira, 19 de março de 2009

O anticristo


Segundo Nietzsche, a vida é um devir constante. Não existe metafísica ou moral, a vida é apenas a vida e nada além disso, nada além-túmulo. Todas as nossas certezas são culturais e provém das relações humanas que construimos. Nietzsche não acredita na verdade, pois já existiram muitas e que ao longo da história foram desmentidas. A Terra por exemplo, já foi plana. Isso era uma verdade. O homem, acreditando no metafísico, acaba por desvalorizar a vida terrena; a única que temos, em prol de uma vida além desta que tudo é bom e belo. O homem nega a vida tornando-se um individuo dominado pela moral. Nietzsche atribui essa culpa ao cristianismo, que prega a padronização do homem, inserindo nele o princípio de culpa e a doutrina livre-arbítrio, que faz com que os homens pensem que são livres, que escolhem e pensem o que querem, enquanto na verdade são todos escravos da moralidade que há muito tempo foi difundida pelo cristisnismo. Onde todos os nossos desejos e prazeres são classificados como pecado, com o intuito de nos fazer sentir culpa daquilo que sentimos, além de carregarmos nas costas o pecado que nós não cometemos (Adão e Eva). Ao submeter-se a esse deus o homem nega sua vontade de potência, seu instinto e aquilo que o diferencia dos outros seres vivos, a razão (?).

segunda-feira, 9 de março de 2009

Empréstimo de livros

Giuseppe Arcimboldo


Não costumo emprestar meus livros, pois tenho muito apreço e me dá uma certa irritação não vê-lo na minha estante. Confesso que esta postura é um tanto egoísta, pois o conhecimento precisa ser disseminado, mas eu não sou uma biblioteca. Para arrancar meus livros da estante é preciso preencher na minha agenda a data de empréstimo e é claro a de devolução. Alguns livros meus estão perdidos por ai, esse é o motivo desta postagem. Gostaria de reavê-los, caso meus amigos leiam isso, peço que entre em contato. Há dois livros meus com a Amanda: " O amor nos tempos do cólera" e "Fadas no Divã". Com a Thaisa (amiga da Maiana) tem um livro muito raro: "Santo Daime". Com a Loeni: "O Mundo de Sofia". Mas existem três livros meus de francês que não sei com quem está, ele se chama: "Tout va Bien".



Peço que quem está na posse desses livros me liguem urgente!!!!!!!!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O oportunismo sofístico e a transferência da Ágora grega

Não sei onde se esconde a verdade, mas não acredito que a Internet seja local-fonte de conhecimento, mas sim informação. O processo que leva informação a conhecimento é árduo e não se dá apenas pela consulta ao Wikipédia. É claro que com o advento da tecnologia e o progresso cientifíco a Ágora grega mudou de lugar, mas isso não quer dizer que precisemos referenciar a educação a algo de baixo escalão. Não acredito que os individuos leitores deste blog ficarão mais inteligentes depois de lerem uma postagem sobe Tocqueville ou Habermas, mesmo que renda uma discussão via web. A Internet é uma das traduções mais imediatas da realidade e de suas fraturas, esta teia infinita de veloz informação acaba produzinho uma certa naúsea e virtualização dos acontecimentos. O que é real e o que não é? O que causa uma certa ambigüidade (tudo bem que acabaram as tremas- mas eu amo) quando deixamos de apreendê-la de perto e verificamos que ela pode ser democrática, mentirosa, descentralizada além de causa sérias modificações lingüisticas que mais empobrece a língua. Não creio que a mutabilidade vinda de um referencial inferiorizado possa ser a solução para as transformações que o século XXI propõe. O individuo navegador passa para um estado de inflexão, que certamente não tornará este conhecimento uma ferramente de durabilidade.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Shivaísmo antigo e vegetarianismo


No livro "Shiva e Dioniso" de Alain Daniélou, ressalta os aspectos religiosos e culturais da Índia antiga, o que é bem diferente da Índia encenada pela Rede Globo. Antes das invasões arianas, a Índia tinha como maioria adeptos do Shivaísmo, a religião mais antiga das quatro principais. O vegetarianismo não existia porque para os Shivaístas não há diferença entre a morte animal e a vegetal. Foi o Jainismo que primeiro incorporou o costume de não comer carne animal e logo após, o vedismo e budismo. No hinduísmo, o vegetarianismo só é exigido aos brâmanes e negociantes, o que supõe uma minoria. Mas mesmo no Shivaísmo antigo, só era aceita a alimentação da carne animal, quando este era oferecido em sacrificio ao deus, comer um grande animal era como se todas as suas potências e qualidades fossem transferida àquele que se alimenta de sua carne.O ato guerreiro faz parte da própria natureza do homem, assim como é declarado no Bhagavad-Gita, quando Arjuna não deseja lutar contra seus parentes, mas mesmo assim o faz, apesar do movimento Hare Krsna ser completamente diferente do Shivaísmo.

Enfim, cada um para de comer carne por um motivo. É melhor não comê-la mesmo.

Mohenjo-Daro


Fui tomada de curiosidade por uma civilização que eu nunca tinha ouvido falar. O nome deste lugar é Mohenjo-Daro, um dos maiores sítios arqueológicos do Paquistão. Me apaixonei pelo simples fato de toda sua história ser uma interrogação, assim como toda Ásia é um caldeirão de religiões e costumes que ultrapassam nossa compreensão por demais ocidentalizada. Arqueólogos e historiadores constatou que Mohenjo-Daro foi habitado cerca de 4000 a.C e teve seu império destruído em 1500 a.C. O que é mais intrigante é que esta civilização era muito avançada tecnologicamente e possuia rede de esgoto, casas residenciais de dois pavimentos, conheciam a arte ,usavem objetos de cobre e marfim no cotidiano, o que sugere que a cidade era grandiosa. O significado de seu nome é "Colina dos Mortos", os esqueletos encontrados nesta região possui um alto índice de radioatividade. Não sei bem ao certo o que provocou o fim do Império de Mohenjo-Daro, alguns autores sugerem a invasão ariana, mas acredito que vá muito além de uma invasão, o seu desaparecimento é um ponto de interrogação na história. Fico um pouco perplexa que a maioria dos indivíduos, sendo cristãos ou não, só começam a contar o tempo a partir do nascimento de Jesus Cristo, como se outros acontecimentos históricos não tivessem tamanha importância. É preciso que as pessoas lembrem-se de que existia vida aqui muito antes da propagação do cristianismo.

Para ver mais imagens de Mohenjo-Daro clique aqui:

sábado, 27 de dezembro de 2008

O sonho


Minha tia mora no mesmo prédio há anos, assim como eu moro no mesmo canto há 21 anos. Não sei se isso é bom, não gostaria de ter tantas raízes. Se pudesse moraria em todas as cidades ao mesmo tempo e sempre no canto delas. A cidade grande é cansativa, as pessoas se esbarram o tempo todo, não somos como as formigas. Sempre pensei no mistério e na sedução que tinha a o centro da cidade do Rio de Janeiro, quando era criança achava bonito tantas pessoas andarem com pressa, os sinais, as faixas de pedestres, os prédios antigos e tudo mais. Hoje entendo a pressa do centro, trabalho nela e tudo aquilo me cansa.


Mas gostaria de falar sobre esse quadro do Van Gogh. Desde menina eu pensava em sentar naquele bar com meus amigos. E fiquei muito tempo procurando por um bar amarelo bem iluminado e um céu como esse. Não achei e nunca vou encontrá-lo em lugar algum. Mas se pudesse eu sentaria com meus amigos no quandro do Van Gogh.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Assassinaram o grão


As batatas são raizes e acho muito fácil perceber isso. Os amendoins parecem batatas de brinquedo. Se me fosse possível voltar a infância, eu gostaria de fingir que amendoins são batatas. Penso na morte dos vegetais e me preocupo. Penso também na comida viva, que é prato cheio dos vegetarianos. Vegetarianos geralmente o são por não gostarem de saborear sangue e morte. Mas germinar uma semente para depois comê-la não é a mesma coisa que matar? Oh Deus...


quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A dança


Nunca gostei muito de dançar as músicas que tocam em ambientes sociais. Não gosto de ir a ambientes sociais, pois me soa muito anti-social. Gosto de ir a lugares que sou bem-vinda e que minha presença não seja só um número ou representando uma instituição. Mas eu queria falar da dança. Gosto de dançar poucas coisas. Gosto de Cordel do Fogo Encantado, Uakti, Maracatu Nação Estrela Brilhante. Dançar é de saia. Dançar é transcedental e é o Deus ao mesmo tempo.
Quando danço, meu corpo é espírito e já não sei para onde vão meus pés. Eu gostaria de dançar num quadro do Matisse.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O roubo da Lótus Violeta


Meu texto foi furtado... Não foi roubado porque não vi...
Mas reparem:

http://demasiadamenteinsana.blogspot.com/2008/10/esttica-da-iluso.html

Olhem o Blog e depois olhem este outro blog, que supostamente é autora:

http://lotusvioleta.blogspot.com/

Percebe-se a semelhança de linguagem entre os blogs e os acentuados erros ortográficos. Além das mesmas imagens...

Além do texto, a lótus roubou fotos da minha amiga Marília e se passa por ela para assinar as mediocridades... ou melhor, os textos roubados de terceiros.

É uma pena....

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

No quadro de Magritte.


Eu queria morar num quadro de Magritte. Há muito tempo penso nisso.

Penso também que nãosei organizar os meus pensamentos. Os ponto finais vêm antes das últimas palavras. Acho que é porque eu esqueço.

Certa vez meu professor disse que minhas frases eram curtas e havia pontos demais. Mas eu gosto dos pontos finais, ele sugere que eu sei a hora certa de me calar. Eu queria me calar num quadro de Magritte, mas ainda não sei bem qual. Talvez eu queria ser aquela nuvem dentro do olho. Dentro do olho tem a bolinha preta. É como o ponto final.
Queria que minha casa fosse o quadro de Magritte. Quem sabe se ele pintasse...
Acho que ele ia gostar de me pintar se estivesse vivo, mas ele virou um ponto final; morreu.
Fico pensando também nas mortes que eu já sofri. Foram muitas.
Ainda tenho os olhos vivos, mas as retinas estão cansadas e por isso eu tenho miopia. A miopia pode ser boa quando você gosta dos Beatles. O meu óculos é igual ao do John Lennon e eu sou feliz assim. O Bilo não gostou muito, preferia aqueles óculos quadrados. Mas eu não prefiro.
óculos redondos são como os pontos finais. Eles são redondos.


sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Yoga x Ginástica


Existem muitas diferenças entre ginástica e yoga e eu adoro ressaltas as diferenças, não importa em qual campo ela esteja. Há uma febre jamais vista em tono da Yoga, diversos centros que oferecem aulas e técnicas. Todo global agora pratica Yoga, mas o segredo dela está além de sua fama e suas formas elásticas.


A concentração do pensamento é a primeira diferença. Quem pratica Yoga certamente fica pensando em como equilibrar o corpo e como conseguir atingir o Nirvana. Não acredito que seja possível 0 0% do pensamento. Nossa mente inquieta nos manda mensagens o tempo todo e não precisa ser estudante de Comunicação para saber isso, basta perceber que sempre estamos pensando em alguma coisa.


Acho que a forma mais autentica de relaxar é não pensar no Nirvana, e sim na natureza. Quando costumo sentar para meditar, procuro um lugar tranquilo onde não possa ser incomodada por pessoas e aparelhos eletrônicos, que dispersa. Procuro concentrar meus pensamentos em focos imaginários de luz e nas criações divinas.


Li uma entrevista muito bacana e gostaria de compartilhar com vocês:



sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O riso

O filho de Saturno - Goya


É possível identificar no riso as diversas facetas do homem. O riso guarda uma dualidade infinda, pode significar tanto miséria como a superioridade do homem em relação ao outro e a natureza. Se observarmos com olhos atentos a significação do cômico, podemos perceber que nada mais é do que a imitação dos piores. Baudelaire ressalta no livro ‘Escritos sobre a arte’ que o riso humano está intimamente ligado à degradação física e moral e nos atenta que o riso é uma das expressões mais freqüentes da loucura.

Podemos citar aqui um exemplo vulgar de que o riso pode ter um caráter diabólico: quando uma pessoa cai no chão ou tropeça é visível e unânime às risadas dos transeuntes. No fundo do nosso pensamento, mesmo que inconscientemente pensamos que são os nossos pés que estão fincados no chão, nós somos mais atentos e caminhamos direito.

Não estou propondo que não rir seja a melhor atitude, mas sugiro um pouco mais cautela antes de fazer do seu riso algo monstruso e maléfico.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Ser pós-moderno


A modernidade é marcada pela ruptura com a idade média. Esta nova era começa quando os valores majoritários da época são postos em cheque. A igreja católica vai perdendo credibilidade e o mundo místico de duendes, fadas e bruxas caem em declínio abrindo espaço para o famoso Iluminismo.
O projeto de humanidade do Iluminismo é de fato muito bonito e atraente, mas também foi utópico demais. A crença no homem e no progresso econômico e tecnológico não transforma a humanidade em comunidade. Octavio Paz fala que a pós-modernidade começou quando a sociedade se deu conta de que fracassaram exatamente por este excesso de razão, que a ciência não trouxe resposta a todos os anseios de uma civilização cansada de tanto pensar.
Esta suposta pós-modernidade trouxe o reencantamento do mundo, com novas seitas esotéricas e livros de auto-ajuda. O que pressupõe uma recaída mística, assim como na Idade Média, as religiões tradicionais já não atendem ás necessidades desta nova geração.
Mas chamar esta recaída de pós-modernidade já é um exagero. A passagem de uma era para outra é lenta. Ser pós-moderno é mais um chavão cheio de significados que não significa nada; valor semântico: zero.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Jainismo e criação do Universo

Este trecho foi tirado do livro "A dança do Universo".
Aqui explica como os Jainistas concebem a criação do Universo.


Alguns homens tolos declaram que o Criador fez o mundo.

A doutrina que diz que o mundo foi criado é errônea e deve ser rejeitada.
Se Deus criou o mundo, onde estava Ele antes da criação?
Se você argumenta que Ele era tão transcendente,
e que portanto não precisava de suporte físico, onde está Ele agora?

Nenhum ser tem a habilidade de fazer este mundo —
Pois como pode um deus imaterial criar algo material?
Como pôde Deus criar o mundo sem nenhum material básico?
Se você argumenta que ele criou o material antes, e depois o mundo,
você entrará em um processo de regressão infinita.

Se você declarar que esse material apareceu espontaneamente, você entra em outra falácia,
Pois nesse caso o Universo como um todo poderia ser seu próprio criador.
Se Deus criou o mundo como um ato de seu próprio desejo, sem nenhum material,
Então tudo vem de Seu capricho e nada mais — e quem vai acreditar numa bobagem dessas?

Se Ele é perfeito e completo, como Ele pode ter o desejo de criar algo?
Se, por outro lado, Deus não é perfeito,
Ele jamais poderia criar um Universo melhor do que um simples artesão. (...)

Se Ele é perfeito, qual a vantagem que Ele teria em criar o Universo?
Se você argumenta que Ele criou sem motivos, por que essa é
Sua natureza, então Deus não tem objetivos.
Se Ele criou o Universo como forma de diversão,
então isso é uma brincadeira de crianças tolas, que em geral acaba mal. (...)

Portanto, a doutrina que diz que Deus criou o mundo não faz nenhum sentido.
Homens de bem devem combater os que crêem na divina criação,
enlouquecidos por essa doutrina maléfica.

Saiba que o mundo, assim como o tempo, não foi criado, não tendo princípio nem fim (...)
Eterno e indestrutível, o Universo sobrevive sob a compulsão de sua própria nat

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Atrocidade aos animais

video

SE NÃO CONSEGUE CONCEBER OS ANIMAIS COMO SERES INTELÍGEIS, OS CONCEBA COMO SERES SENSÍVEIS!

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Comida viva!


Não pense você que ao chegar no Restaurante Semente, na Lapa, irá comer tatuís, camarões, peixes vivos! Lá só é bem-vindo verdures, legumes e grãos germinados.

Quando cheguei por lá, vi que não existem mesas individuais, é uma grande tábua de madeira que todos se sentam para comer, como uma família mesmo! O que é surpreendente, uma vez que em nossa sociedade prevalece os costumes e hábitos indiviuais.

Fomos recebidas pelo , um cara incrível que antropologicamente atraí nossos olhares. Ele nos explicou sobre os benefícios da comida viva: O alimento quando cozido acima de 38 graus perde a maior parte das vitaminas e, quando eles estão crus eles possuem o silício da alegria!!!

Até agora não entendi muito bem esse sílicio da alegria, pois se não me falha a memória os sílicios fazem parte dos minerais! Mas não posso negar que saí do restaurante bem alegre e satisfeita! Pois geralmente como muito fora de casa, até ficar "cheia".

Enfim...foi uma experiência tão agradável que já estou colocando meus grãos para germinarem! Pois sinto que está faltando uma pitada de sílicio da alegria na minha alimentação. Chega de comer dor e morte animal!

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Arte oriental hindu

Não sei o que de fato me leva para Índia, talvez o fato unitário de conceber o mundo e as coisas que o completam. Não consigo imaginar o homem, os animais, a vida e as relações como algo fragmentário. Não acredito no monoteísmo e nos tons pastéis. A índia é exuberante e algo icognoscível aos olhos ocidentais tão cansados. A arte oriental hindu já é uma grande diferença na maneira de se pensar o belo.Na índia antiga não existia a arte-pela-arte, as obras orientais estão ligadas ao sagrado e não do culto a inspiração do pintor/escultor. Sobretudo a arte hindu é uma arte anônima, é quase impossível saber quem é o autor, uma vez que muitas obras foram destruídas pelos turcos e logo após os Ingleses. Mas a maior destruição que esses povos trouxeram para a índia, foram as suas maneiras monoteístas e ranzinzas de ver o mundo, o que influenciou posteriormente na estética hindu. Não sou a melhor pessoa para tratar deste tema, só estou passando para frente informações preciosas cedidas pelo Professor André Bueno.


Para conhecer mais vá até ele: Índia Antiga

Fotografia é arte?

Por muito tempo me questionei se fotografia era arte, muitos tentaram me convencer de que era e finalmente descobri que sim. Sem dúvida este é um questionamento ultrapassado, mas eu sou ultrapassada, tradicional e um tanto redundante. Já li um texto que abordava a questão se todos os fotógrafos virassem pintores, o que de fato aconteceria. Os demais pintores iriam espernear um pouco, mas a Estética acabaria sendo aceita com o tempo. Quando vi os trabalhos de Pandiyan acreditei que é possível uma foto ser uma obra de arte. Então vou dedicar algumas postagens para a publicação dessas fotos.













terça-feira, 1 de julho de 2008

Globalização

Duke of Bedford, "Torre de Babel"

Sempre pensei nas inumeráveis funções que um condomínio, estilo Barra da Tijuca, têm pra um individuo que supostamente vive em sociedade. Em virtude da violência, cada vez mais muros vão sendo erguidos e as pessoas são separadas como aqueles que moram ‘do lado de lá’. Está acontecendo uma segregação social invisível, e você ainda pode parcelar em várias vezes. Os condomínios cercado de luxo e facilidades, possibilita que o morador nem saia na rua, existe tudo ali dentro, shopping, academia, praia, padaria, mercado etc. E como lembrou o antropólogo Zygmunt Bauman:“ Os moradores do condomínio cercam-se para ficar longe do excludente e desconfortável”. É como se tudo de maléfico e poluente estivesse fora do seu espaço, as pessoas gostam de declamar discursos de homogeneidade da sociedade, mas compactuam com estilo de vida que por si mesma, exclui o outro e afirma com sua própria existência, o quanto somos diferentes. É difícil encontrar uma solução local para um problema global, não adianta querer mudar o “seu bairro”, “a sua cidade”, preservar a “sua floresta”, estamos tão indefesos nesse furacão da globalização e acabamos nos agarrando em nós mesmos e não percebemos que nós somos os outros.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Uma gota de Rousseau


Em meio à efervescência das luzes e a valorização do homem no iluminismo, surge Rousseau contrariando a filosofia da sua época. A diferença crucial entre Rousseau e os demais filósofos iluministas, era que este falava de homens enquanto os outros falavam em súditos. Para o filósofo o povo está acostumado a senhores e a servir, não pode mais passar sem eles, e extingue-se o homem natural, que satisfaz suas necessidades, não precisa do auxílio de máquinas para se manter e tendo consciência de sua força, ele é temido pelos animais. Para Rousseau o entendimento do homem só difere do animal pela sua intensidade, pois animais sabem combinar as idéias e vive de acordo com a natureza. O homem tem a liberdade de escolha. A indústria e a socialização dos homens colocaram as leis em detrimento do direito natural, pois esta nos tirou a força e agilidade para buscarmos nossos sustentos, além de ter impostos novas condições e bens materiais para a nossa sobrevivência. “A diferença do homem e do animal é a faculdade de se aperfeiçoar, a qual, com o auxílio das circunstâncias, desenvolvem sucessivamente todas as outras e reside, entre nós, tanto na espécie como no individuo, ao passo que um animal é no fim alguns meses, o que será a toda vida. Por que só os homens estão sujeitos a se tornarem imbecis? .
O homem no seu estado de natureza não tem o que temer. Ele aprende com o natural e não precisa se opor a natureza, caso contrário o homem está traindo a natureza e sua real condição. “Conhecendo tão pouco a natureza, e harmonizando-se tão mal sobre o sentido da palavra lei, seria bem difícil encontrar uma boa definição da lei natural”.


Existem dois conceitos-chave para o esclarecimento da sua filosofia: o amor-próprio e o amor de si mesmo. O amor de si mesmo é aquele que se encontra nos animais, que acasalam pelo sentimento natural de preservação da espécie. O amor-próprio é salutar do homem que diferente do animal, consegue interiorizar o olhar do outro em si mesmo, diz-se respeito ao reconhecimento universal. É o sentimento das paixões que leva o homem a se comparar com os demais. Para Rousseau o hábito de viver coletivamente fez nascer no homem o amor conjugal e o amor paternal, que antes não havia no meio natural. O homem natural, sendo um individuo só, preocupava-se nas necessidades naturais e no sexo quanto instinto e preservação da espécie. E quando se formam esses núcleos familiares, surgem tais sentimentos. A sociedade impõe um comportamento artificial ao homem, que acaba por ignorar suas necessidades naturais, tornando-o vaidoso e orgulhoso. O amor de si mesmo em detrimento do amor-próprio, que é típico de uma sociedade onde se ignora o sentimento natural. No estado do homem primitivo esse conceito de amor-próprio não existe, pois ele não pensa em si como algo individual e fragmentado da natureza, ele é a própria natureza e está ligado a ela de modo intrínseco.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Meu nome não é Flor


Existem muitas pessoas que acham que meu nome é Flor. Não, não é. Meu nome é Raisa, com um "s" e som de "z". Flor foi apenas um apelido, decorrente de uma tatuagem que fiz, então aproveitei a Flor para assinar poesias e textos. Mas quando eu escolhi usar a Flor, estava num momento musical muito intenso com Joan Baez, então me aproveitei do seu sobrenome.

Gosto muito de Raisa, um nome bonito. Mas a Raisa é muito densa, descrente, intolerante, ousada. E a Flor é leve, como leve pluma muito leve, leve pousa. Ela é mais alegre, emana luz, é algo sensacional, permite a Raisa acreditar em algumas coisas, antes repugnantes.

E no meio de toda essa dupla personalidade, lembrei-me de um poema do Fernando Pessoa, chamado Tabacaria, e há um trecho que descreve muito bem tudo isso:


"Quando quis tirar a máscara,

Estava pegada à cara"

quarta-feira, 14 de maio de 2008

O que houve?

Nada disso que se apresenta para mim me soa estranho.
Tudo isso já me foi dado por um Deus que nunca vi
Mas que se materializa em sonhos.
Tudo isso que se apresenta em mim eu já vivi.
A história sempre me repete.
A mesmice sempre me surpreende na porta.
E eu estagno nesse seu calendário tão imperativo.
Completamente tocada pela esquizofrenia
Eu calo os meus versos
Que é pra você não me perguntar depois o que houve.
Eu houve!
Escrita há bons dois anos atrás....

Uma questão de sombra


Numa discussão muito acalorada sobra o Leviatã de Thomas Hobbes, chegamos a um momento quase de transe, quando o professor,Oswaldo Munteal, nos alertou sobre nossa sombra. A sombra ela vai além daquela forma bidimensional projetada pela ausência parcial de luz. Ela é aquilo que repudiamos. Aquilo que enxergamos nos outros e repugnamos, pois é exatamente o que temos de pior dentro de nós. Quando queremos fazer justiça com as próprias mãos, é porque temos que eliminar no outro aquilo que existe em nós. Por mais absolutista que Hobbes tenha sido em suas escrituras eis o legado: “Lê-te a ti mesmo”.
Olhar para dentro de si e examinar o que estamos pensando é primordial para não cometermos injustiças, pois a sombra não é apenas uma sombra, é outro.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Criatividade nas bordas


Ser clichê é só um estado de espírito. Não há predisposição para a redundância. Somos antes de ser, seres criativos. Pelo menos o que deveríamos buscar. No fundo todo mundo quer a mesma coisa. O destaque está nas bordas, na ponta dos dedos, no canto do olho.

Escrever é transcender, mesmo que seja de você mesmo. Escrever como coisa-em-si é clichê. Pois todas as palavras já foram escritas. O experimental é o dissonante. O erro.

Não sei se hoje somos o suficientemente criativos para experimentar. Desde muitos anos existem os modernos, e consequentemente os pós-modernos, os contemporâneos...mas e nós? Somos o quê?


Neo- contemporâneo? Se for, somos apenas as redundâncias.

Maquiavélico



No livro “O Príncipe” de Maquiavel, ele se concentra, não tão especificamente sobre as indicações de como ganhar o poder, como mantê-lo e por que se perde. Maquiavélico, já virou adjetivo, como sinônimo de uma pessoa má e perversa, mas na realidade, para Maquiavel, na vida política não há o bem nem o mal. Esses dois conceitos devem ser dissociados, pois mesmo a pureza das intenções é capaz de todos os crimes. Ele não condena o uso da força, quando uma lei não é capaz de manter a ordem. Mas se os meios justificam os fins...
No primeiro capitulo Maquiavel distingue os vários tipos de Estado e como eles são constituídos. Mas de acordo com a sua época, há os principados, que são passados de forma hereditária, e os principados que são fundados recentemente. Para manter os Estados herdados, onde os súditos estão habituados a obedecer à determinada família reinante, é preciso evitar transgredir as leis e os costumes tradicionais. Quando o príncipe tem menos motivos para ofender seus súditos, mais querido ele é por eles, assim como para com as massas. É preciso que o soberano não seja odiado, pois quando o é, correm sérios riscos de ameaça.
Quanto às monarquias mistas, Maquiavel diz que as dificuldades aparecem nas monarquias novas. A tendência é que mudemos de governante ciclicamente, afim de melhorias, e quando percebemos que a mudança foi pra pior, há uma descontentação em massa. O resultado para o soberano, é a coleção de inimigos. Maquiavel diz: “O soberano fará, assim, inimigos – aquelas pessoas injuriadas com a ocupação do seu território – e não poderá manter a amizade dos que o ajudaram na conquista do poder, por não lhe ser possível satisfazer suas expectativas”. Por isso é que o soberano precisa contar com a população de um território para poder dominá-lo. O uso do exército, apenas, não é suficiente.

Talvez a narrativa atual não condiz especificamente uma guerra entre vizinhos territoriais. A arte de ler está em adaptar, transmutar os signos, transcender aos simbolos.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Sun Tzu

Sun Tzu em “A arte da guerra” propõe um manual de como se comportar e agir numa guerra para que seja vitorioso. Aqui está a compreensão de que o conflito faz parte da vida humana. Sun Tzu trabalha o conflito de forma profunda e verdadeira. Os treze capítulos tratam desde o terreno a guerrear aos movimentos estratégicos, alinhado numa percepção bem Taoísta. Sun Tzu nos primeiros capítulos diz que é preciso saber escolher seus adversários, preferencialmente os mais fracos. Nos atenta a não travar batalhas com inimigos mais fortes; Deixe que essa seja uma guerra para as gerações doravante. Reconhecer nossa própria força é essencial para que se planeje uma batalha. Os orientais costumam ser mais estratégicos na sua política de ação.
Na relação com seu inimigo, é essencial que você dissimule sempre. Não se deve falar ao inimigo o que você conhece. Pois quem realmente conhece, não fala. Mas não o ignore. Pois se você o ignora e ignora a ti mesmo, colecionará derrotas. Ele fixa que a guerra é algo muito importante e cansativo por isso é preciso uma preparação reflexiva, avaliando: Influência moral, o clima, terreno, comando e doutrina. Para os orientais é importante valorizar o tempo e a experiência. Aparentar simulação, incapacidade e desordem, é uma ótima cilada para capturar o inimigo, além de atacá-lo onde ele não estiver preparado. “Quando o trovão ribomba não há tempo para se taparem os ouvidos, pois mesmo que nos venha a descobrir, já não disporá de tempo para estudar suas defesas e nós os venceremos”.
Sobre os inimigos, Sun Tzu, nos alerta para aqueles denominados de franco-atirador. Têm inimigos que não tem nada a perder. Um exemplo atual desse inimigo são os homens-bomba. É melhor temer, porque ele capaz de qualquer coisa para te destruir.
Sun Tzu ressalta em diversos capítulos que o objetivo da guerra é a paz. Assim como a vitória. Mas ela deve ser rápida, pois as tropas ao se cansarem, ficam com a moral baixa, saudades de casa. Além de custar muito caro às reservas estatais. “Nunca houve uma guerra prolongada com a qual qualquer país tenha se beneficiado”. As tropas devem levar seus equipamentos e contar com o abastecimento do inimigo, para não altar alimento. Sun Tzu conta que houve uma batalha em que o general destruiu todas as panelas e alimentos, e mandou a tropa atacar o inimigo bem cedo e para depois sentar-se a mesa do inimigo e tomar o café-da-manhã.
No terceiro capítulo, trata-se dos planos de ataque. Onde a melhor política é atacar um estado sem destruí-lo. Pois o arruinando, seu valor diminui. Assim como é preferível capturar o inimigo a destruí-lo. Pois estes podem ser no futuro, seus aliados. O principal objetivo deve ser atacar a estratégia do outro. Aqueles que têm habilidade na arte da guerra dominam sem destruir. Não é preciso saquear cidades, destruir toda a tropa. “Porque obter uma centena de vitórias numa centena de batalhas não é o cúmulo da habilidade. Dominar o inimigo sem o combater, isso sim é o cúmulo da habilidade”. Mas isso não impede que se destruam quando se faz necessário. O exército precisa estar bem comandado pelo seu general. Um exército confuso conduz o adversário à vitória. Perceber se há condições de enfrentar é um dos passos.
Sun Tzu aponta três pontos para o caminho da vitória:
· “Conhece-te a ti e o teu inimigo e, em cem batalhas que seja, nunca correrás perigo”
· Quando te conheces, mas desconheces o teu inimigo, as tuas hipóteses de perder e ganhar são iguais”
· Se te desconheces e ao teu inimigo também, é certo que, em qualquer batalha, correrás perigo”.

Perceber a disposição das tropas é indispensável. Aguardar o momento fraco do inimigo torna os guerreiros invencíveis. A invencibilidade está defesa assim como a vitória está no ataque. Os cinco principais elementos da arte da guerra, por Sun Tzu é: A noção de espaço. Isso significa conhecer bem o terreno onde se planeja a batalha. Averiguar se é vantajoso e acessível a sua tropa e a tropa inimiga. Avaliação das quantidades. Verificar os números. Comparar vitórias. Calcular o grau de dificuldade do terreno inimigo e o número de homens que o adversário dispõe. Os cálculos. Também explicado anteriormente. Comparações. Isso propõe comparar o número de homens de cada lado, comparar vitórias, etc. Possibilidades de Vitória. Saber exatamente quais são suas chances de ganhar a batalha. Ninguém entra numa guerra para perder. É preciso avaliar se você tem todas as condições de enfrentar o inimigo. As possibilidades de vitórias vêm acompanhadas dos cálculos e comparações. “O exército é como água, aproveita-se da distração do inimigo, ataca-o onde não é esperado, evita-lhe a força e atinge-o onde ele não pode se defender”. Mas é importante que não entre na batalha considerando que o inimigo não é bom.
Sobre o controle do general para com suas tropas, Sun Tzu diz que controlar muitos é como controlar poucos. Depende apenas da organização da tropa e da autoridade e respeito que o general impõe sobre os seus subordinados. A boa manutenção dos sinais é indispensável. Como todo o batalhão não conseguirá ouvir um, é preciso que haja uma comunicação com os mesmos, através de sinais. Estas se faz com bandeiras, que orientam o exército. No mesmo capitulo, Sun Tzu diz que se um exército deseja simular desordem para atrair o inimigo, é preciso ser altamente disciplinado, para saber simular confusão. Porém na guerra não há regras fixas. Elas precisam ser talhadas conforme as circunstâncias. Pois a própria guerra é cíclica. “Porque acabam e recomeçam; são cíclicas como o mover do Sol e da Lua. Nascem e renascem; são periódicas como as estações, que se sucedem”.

Caso Isabela

Este artigo foi escrito pelo meu professor Ivo Lucchesi, e não tive como não publicá-lo aqui. Leiam até o final. É muito importante que se reflita o papel da mídia e da população de um modo geral, diante das desgraças ocorridas nos últimos anos.

Assimetrias culturais e o kit sofrimento
Por Ivo Lucchesi em 8/4/2008

Tenho plena consciência de que o tema a ser abordado pode carrear, para a imagem do articulista, alguma carga de antipatia. Todavia, assumo o risco em favor de um pensar cujo propósito tenta, mesmo timidamente, contrapor-se a uma tendência que, segundo parece, se torna um paradigma no comportamento da classe média brasileira no lidar com tragédias do cotidiano, com base num estímulo ditado pelos veículos de comunicação (impressos e eletrônicos).
Ao repassar, na memória, ocorrências irmanadas pela marca da violência urbana, há décadas, proliferantes nas principais capitais brasileiras, algo parece apontar para um roteiro que já não esconde a "clicherização". Sem recorrer a pesquisas, a memória registra a morte da adolescente Gabriela, assassinada no interior de uma estação do metrô (RJ), por conta de uma troca de tiros entre policiais e bandidos. Outro caso, também no RJ, comoveu o Brasil: o menino de seis anos, João Hélio, arrastado por um carro, ao longo de 7 km. Recentemente, o assassinato da menina Isabella.
Os três casos relatados (afora outros não mencionados), resguardado o respeito a todos os vitimados, apresentam algo em comum o que me causa certo desconforto. A procedência do mal-estar tem dois vetores: 1) o comportamento da mídia; 2) a reação dos vitimados. No tocante ao primeiro, é indisfarçável o ímpeto da mídia em explorar a comoção do público receptor. O tratamento jornalístico de tais fatos é visivelmente contaminado por enfoques novelísticos. No que diz respeito ao segundo, fica evidente a incorporação de tensões típicas de como se absorve a emocionalização com a qual se configuram conflitos novelísticos.
"Modelito" pronto?
Semelhante avaliação a fez Rosely Sayão no artigo "A sociedade do espetáculo" (Folha de S. Paulo, 06/04), quando se fez presente à missa de sétimo dia na Paróquia Nossa Senhora da Candelária:
"O padre começa a missa pontualmente, não sem antes exigir que todos da mídia se concentrassem no local reservado. Pelo lado de fora da igreja, cheguei à frente. De lá, vi o altar repleto, com crianças com menos de seis anos que brincavam, corriam, conversavam. Pais as fotografavam com celular.
Passei a sentir um mal-estar. Olhava para o público e não identificava expressões visíveis de dor, sofrimento, indignação, espanto. Foi mais resignação o que vi estampado nos rostos presentes. Alguns choram silenciosamente. Os demais cantam, batem palmas, oram.
A comunhão ocorre enquanto uma jornalista escova os cabelos e ensaia a entrada que fará ao vivo /.../".
O depoimento da colunista é preciso na captura de algo estranho a habitar o imaginário societário, pautado pela contaminação midiática que parece arrastar todos ao "culto do evento".
O que tento configurar (sujeito a um olhar deformado) é o fato de, em todos os casos, perceber um "roteiro" no qual se dá encadeamento previsível, a exemplo do formato das novelas. Tentarei dar concretude ao que pode parecer algo abstrato e impressionista.
Há um fato de dimensões trágicas. Seqüência 1: a mídia dá plena visibilidade. Seqüência 2: a família vitimada concede entrevistas a todos os veículos (impressos e eletrônicos). Seqüência 3: a mídia relata, passo a passo, as investigações. Seqüência 4: a missa de sétimo dia: ao acontecimento, todos os familiares comparecem com uniforme: malhas que, no peito, estampam a foto e o nome do ser vitimado. Seqüência 5: à saída da missa, entrevistas. Daí para frente, o enredo tem igual desfecho: alguém funda uma ONG em homenagem à vítima. Fico a imaginar quem, na família vitimada, ainda sob intensa dor da perda se preocupa em providenciar malhas estampadas. Encomendar, pagar, buscar, distribuir... Será esse o "modelito" já pronto para tais situações? Por outra, o "modelo" combina com o esgarçamento subjetivo que o sofrimento imprime às vítimas?
Um tipo perverso de "compensação"
No mais recente caso, o repórter do programa de TV Aqui e Agora (SBT, edição do último sábado), estava à porta do edifício onde reside a mãe, Ana Carolina, que, no sábado, completava 24 anos. Ela desce as escadas, com semblante levemente suave, devidamente uniformizada (a malha com o nome e a foto da filha), e encontra populares, com cartazes, aos prantos e aos gritos. O repórter aborda a mãe e pergunta-lhe, após saber que já existia uma ONG: "Ana, quais são os próximos eventos?" A mãe, ainda tomada pela dor, responde: "Olha, não sei, mas estamos pensando em mais outras coisas /.../."
A pergunta do repórter não poderia ser mais infeliz e, ao mesmo tempo, reveladora de como a mídia se comporta ante a tragédia que "decora" o cenário da vida. "Eventos"? Será a morte, em circunstâncias tão injustas e perversas, "produto" para alimentar imaginário marqueteiro? Por outro lado, a classe média brasileira terá caído na "armadilha midiática" de um certo (errado) jornalismo que não esconde sua filiação "publicitária", capaz de transformar a dor em produto de venda? Estamos, culturalmente, muito mal. Em tempo: a avaliação não tem nada a ver com instância política. Por favor, nenhum leitor queira considerar que a presente crítica tenha a ver com "governo Lula". Não, o buraco é muito mais embaixo. A questão de fundo não diz respeito a políticas culturais e educacionais de ordem governamental. Estas atuam em outros setores. O problema mesmo tem a ver com "modelagem midiática" e "sistema educacional" na dimensão cotidiana. Quais são os "agentes midiáticos e educacionais" que, de modo efetivo, se tornam responsáveis pelo grau de deformação, em função do que noticiam e do que ensinam.
A questão tem suas raízes no conceito de educação e de cultura, as quais, por sua vez, também não se referem a políticas governamentais. Há algo no imaginário populacional brasileiro que está fortemente transtornado por conta de um paradigma midiático para o qual boa parte da população escolarizada presta devoção e, sem perceber, reproduz o modelo em suas vidas. Há uma espécie de "kit sofrimento" com o qual os seres vitimados pela dor da perda promovem a reprodução automática de uma "roteirização" para a qual, em algum grau, a mídia contribuiu. Esclareça-se que não são apenas malhas estampadas e ONGs. Proliferam, também, associações para famílias traumatizadas por fatos similares. A mídia tende a tratar os seres vitimados como novas "celebridades", sugerindo, para os seres acometidos pelo sofrimento profundo, um tipo perverso de "compensação", ou seja, "já que você está sofrendo, então console-se com a "popularidade de sua imagem".
Jornalismo não-investigativo
O dado aponta para outro aspecto: o cidadão brasileiro não está preparado para suportar a dimensão subjetiva de sua própria dor. O que isto pode significar? De onde provém tamanha fragilidade emocional? Que fatores estarão conformando o imaginário brasileiro, de modo a gerar a preferência por "estrutura narrativa clicherizada", somada à "padronização estética", em prejuízo das vivências subjetivas mais profundas e intransferíveis? Por que a dor individualizada nos assusta tanto? O que se verifica, progressivamente, é uma espécie de "subjetivação midiatizada" (ou "subjetividade midiatizada"), redundando em "fenômeno invertido".
Dois programas dominicais prometeram "revelações esclarecedoras" quanto ao "caso Isabella": o Fantástico (Globo) e Domingo Espetacular (Record). Bem, nem o primeiro exibe fatos "fantásticos", nem o segundo expõe algo "espetacular". O que une os dois é apenas a exibição de programas aos domingos.
Os dois programas dominicais apenas investiram na estratégia da "reativação", com o intuito de envolver, emocionalmente, o contingente populacional no "acontecimento". Sob o ponto de vista jornalístico, nenhum dos dois foi capaz de oferecer ao receptor nada de especial. Ninguém indagou ao pai ou à madrasta por que há manchas de sangue no carro da família. Ninguém procurou apurar por que um pai, após ver uma filha estendida, seis andares abaixo, num jardim, vai tomar banho no apartamento da irmã.
O sentido de democracia
Como pai, tento imaginar-me em tal situação. Jamais, elegeria, como prioridade, tomar banho. Enfim, o tal "jornalismo investigativo" é, no mínimo, risível (Globo ou Record). O que, a rigor, a modalidade televisiva promove é uma "recepção excitada" cujo efeito consiste em vivenciar as tragédias do cotidiano na mesma sintonia com a qual o receptor acompanha as "tensões ficcionais", codificadas pelo "formato semiótico" que alimenta a "estética novelística". O problema é que, na reiteração de coberturas dessa ordem, o receptor brasileiro vai turvando, progressivamente, a relação entre "verossímil", "verdade", "lógica" e "realidade". A conseqüência quanto à competência cognitivo-perceptiva não é pouca.
Paralelamente, virando a câmera para outro quadro, permanece o embate entre ciência e religião: a CNBB inibe o poder judiciário quanto ao veto para a liberação de tratamentos à base de "células-tronco embrionárias". Diz-se que o Estado brasileiro é laico. Todavia, os fatos não ratificam essa avaliação. Em Estado verdadeiramente laico, é compreensível que doentes, devotos de crença "x", tenham seu direito preservado e doentes, devotos de crença "y" (ou de nenhuma crença), possam decidir sobre o destino de suas vidas (e de suas mortes). Não é o que os fatos atestam. A mídia, entretanto, em relação a essa questão, não se empenha em contemplar as diferenças. Ao contrário, a mídia trata a questão com timidez que beira a subserviência. Que tal injetar-se mais ousadia na abordagem do tema? Numa avaliação de quem tenta cultivar um olhar criticamente distanciado, sou levado a crer que a maior parte da mídia e expressivo contingente do imaginário social da classe média brasileira estão aquém da astúcia com a qual o governo federal conduz os destinos da nação.
Outros temas polêmicos acusam iguais distorções. Em matéria de primeira página, a Folha de S.Paulo (06/04) estampava resultado da pesquisa Datafolha, concluída em março: "Cai apoio à pena de morte; 68% rejeitam aborto". Que ótima, a primeira! Que lástima, a segunda! Os dados apontam para uma espécie de instabilidade ética. O grupo que repele o direito de o Estado matar em nome da justiça é o mesmo que não reconhece o direito de a própria mulher decidir sobre o uso de seu corpo e do destino a ser dado à sua vida. 45% também são contrários à união civil entre pessoas do mesmo sexo. Não se trata de princípio em favor à preservação da vida. Pena de morte e aborto implicam situações distintas. A pena de morte é uma oficialização coletiva. O aborto é uma escolha individual que é motivada por histórias pessoais específicas. A conclusão é a de que ainda somos pouco auto-determinados. Ainda não aprendemos, em profundidade, o sentido de democracia, de respeito às diferenças e minorias. A sociedade precisa compreender que o corpo pertence a quem o tem. Continuemos caminhando.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Unidade 731


No vídeo “Unidade 731” vemos os horrores de uma guerra biológica, os experimentos com seres humanos e muito sofrimento. A exibição da “crueldade”, se contextualizada, serve para sinalizar às novas gerações a importância e vigilância na preservação da democracia, contra possíveis retrocessos de força. Quando usam imagens chocantes ele se contrapõe àquela matéria sobre os atentados as torres gêmeas. As imagens conseguem afetar mais o individuo porque trabalha com mais sentidos do que a linguagem escrita, e quando a escrita é inocente não há nada que produza um grau de reflexão. A simples exibição do horror/terror/crueldade gera, no receptor, estado de fragilização e intimidação.
A mídia em geral não mostra o que realmente acontece. O exemplo disso pode ser uma pesquisa feita com 30 “voluntários” para cura da AIDS. Nós não sabemos como esses voluntários são realmente recrutados. E não interessa para os veículos de comunicação ir contra o poder. Caminhando junto com eles os dois se tornam mais poderosos e conseguem facilmente manipular os indivíduos.
O efeito subjetivo da mídia é o anestesiamento. Não contextualiza nada. Tira a inteligência e compensa com ingenuidade. A superexposição e espetacularização das noticias faz com que não fiquemos mais chocados, como se aquilo tudo fizesse parte de uma realidade exterior a nós. Como se aquilo jamais pudesse acontecer com você e na redondeza onde mora. Assistimos o jornal como se fosse novela e assistimos à novela como se fosse o jornal. Isso mostra uma sociedade que já não consegue distinguir nada.

Estética do sentido e a estética da ilusão

A estética do sentido e a estética da ilusão estão altamente relacionados com a grade midiática, o efeito do discurso publicitário e o poder. Os veículos de comunicação preparam matérias cujo conteúdo é sempre o mesmo e sempre sensacionalista, causando uma sensação de que estamos bem informados do mundo que nos cerca e livres dos perigos que assombram “os outros”. A escolha desses temas em detrimento de outros que desafie nosso poder de criticidade, se faz pelo próprio poder, para nos manterem num estado ingenuidade, tanto no olhar quanto no comportamento passivo, fomentando subjetividade descentrada.
A homogeneidade da sociedade faz com que o sistema continue em equilíbrio, centralizado e o poder não-ameaçado. O que vemos é que o poder insiste em controlar nossa subjetividade, voltando nossa atenção e nossos olhos para leituras que não desafiam o intelecto, reportagens facilmente digestivas e principalmente o consumo desenfreado e desnecessário. O vigor do sentido só pode ser recuperado se nos colocarmos numa posição contrária a todas essas formas de aprisionamento e redundância, que homogeneíza a sociedade. Antes o sentido fundava a existência das coisas, hoje o sistema mercadológico ocupou este lugar, sustentando o modelo de “sociedade creôntica”, onde as pessoas se alimentam de meras ilusões, incapazes de desenvolver uma consciência reacionária. Vêem jornal como se estivessem assistindo novela, e vêem novela como se assistissem ao jornal, isso mostra uma população que não consegue distinguir nada. E de repente somos assaltados por anúncios publicitários, que vem para afastar a realidade, e acabamos por oscilar entre a sedução publicitária e o fantasma do real. A subjetividade prospectiva pode ser alcançada por um modelo de leitura mais desafiador. O investimento em leitura produtiva é essencial para que a sociedade implante um modelo cultural crítico onde as pessoas além de cultivar o hábito da leitura, mas como foi citado anteriormente, uma leitura que necessite de total atenção para a compreensão dos signos e símbolos , que desafie o intelecto e o poder de criticidade. As escolas secundaristas que deveriam iniciar esse modo de leitura prospectiva deixam a desejar. E somente através desse modo de leitura que o individuo se qualificariam no processo educacional. Nessa sociedade pautada pela cultura do olhar, onde somos assediados a todo o momento com cartazes, outdoor, televisão, jornal, de fácil digestão, as pessoas dificilmente se interessam em ir além do poder de compreensão. Dá-se por satisfeitas com informações frívolas de baixo teor de conhecimento, e se sentem bem informadas. Essa seria a estética da ilusão que afasta o individuo de afiar sua subjetividade prospectiva. A estética do sentido seria uma forma de enfraquecer a subjetividade descentrada em detrimento da prospectiva.

Ufa!


Esse cheiro de passado que não insiste em passar
Esse gosto de ferrugem que insiste em ficar
Esse gesto tão indigesto que você me fez
Essa história que um dia era uma vez.

Março


Queria mais um dia
Pra não fazer
Pra não dizer
Pra não cansar
Queria mais um dia
Pra não pedir
Pra não ferir
Pra não esperar
Queria mais uma noite
Pra não chorar
Pra não dormir
Pra não sarar.

Antes minha dor
À sua ausência
Antes uma noite
Do que não mais.

O vento que hoje corre
Acelera os dias
Faz voar as noites
O vento que trouxe
Já levou as folhas
Já acabou o verão.
É março.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O rol das mazelas

Os casos de dengue só vêm aumentando no Rio de Janeiro, preocupando a população e os governantes, que por sua vez demoraram a assumir a condição epidêmica, que se agravou ainda mais com o caso de fortes chuvas e a falta de atenção das pessoas para os focos. Com os hospitais públicos e particulares sem leitos, os índices de mortes vêm subindo a cada dia.
O Estado do Rio de Janeiro teve que pedir ajuda ao Exército para atender as demandas de doentes, que o município, sozinho, não consegue atender. O ideal seria que todos os postos de saúde fossem bem equipados.
Não adianta aumentar o número de médicos e atendimentos se a população e governantes não se conscientizarem dos seus deveres e tarefas. O que vemos pela cidade é sujeira e falta de saneamento básico. Não sei se somos vitima da dengue ou do poder público. O adiamento com a preocupação do mosquito fez com que a epidemia se torne longe de ser resolvida. Ninguém assume a responsabilidade, ela é repassada do prefeito ao Presidente da República. Quantas pessoas ainda precisam morrer?

terça-feira, 1 de abril de 2008

ops

Depois de alguns meses sem internet e inacessível.
Obrigada pelos recados. Fico muito agradecida com com o carinho.
Voltei!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Da arte

Da ciência espram-se descobertas, da técnica, progressos que facilitem nossa ação no mundo. Da arte não podemos tirar um ensimento tão últil e rentável. Nieztche disse que a arte é como um enfeite da existência. Um ornamento encarregado de trazer um pouco de fantasia a uma vida escravizada ao funcional.

Marc Jimenez

A coisa


Na Idade Média acreditava-se que a essência das coisas estavam nas próprias coisas. Como se a essência do objeto migrasse até o conhecimento. Primeiro precisamos entender a real significação de essência, que é aquilo que faz a coisa ser tal qual é.
Podemos até citar aqui alguma coisa de Descartes. Se meus sentindos me enganam o tempo todo, como posso acreditar na minha concepção de mundo? Instala-se uma dúvida universal, contestar até a própria existência. O meu eu migra até meu conhecimento?
Até para duvidar precisamos ter uma certeza, nem que ela seja a certeza de que dúvido.
É o pensamento que garante a existência das coisas. Não existe auto-suficiencia da razão. Se um indivíduo for isolado do convivio, da linguagem, ele não desenvolve a razão.
Quem duvida, que pesquise Kaspar Hauser.
As significações não são naturais. Nós as estipulamos. Cada um a sua maneira acredita a coisa em si. A vaca para um Hindu não tem o mesmo significado para um gaúcho. E com Kant já disse antes "Quando você vê uma coisa, você não vê a coisa em si".
Você conhece a coisa, mas não a essência dela, pois ela já foi deturpada pelo homem e sua
linguagem.
Qual é a relação de Arcimboldo e o texto?

Analógico x Digital

Há duas formas de conceber o mundo. Ou analógica ou digitalmente.A analógica é a forma que os orientais concebem o mundo. Uma tradição de valores. E por sermos ocidentais demais, muitas vezes não os compreendemos. Por analogia você infere no significado. É uma visão holística. Composta não por partes, nem fragmentos, mas uma análise da totalidade. A primeira coisa que figuramos quando pensamos em analógico, é o relógio de ponteiro. E ele ilustra bem estas diferenças. Para sabermos a hora, precisamos de uma significação anterior. Descobrimos a hora em partes. E numa visão analógica, você consegue apreender o todo. Existe todas as possibilidades de cronomotrar o tempo (apesar deste ser relativo).O mundo concebido digitalmente é uma particularidade dos ocidentais. Temos aqui uma tradição de leis. Não há um elo entre as coisas, tudo é segmentado do outro. Não existe uma visão do conjunto. Vivemo num mundo virtual onde eu reparto a realidade e, como eu estou inserida nela, eu me reparto também. Tenho determinada conduta em um determinado lugar. Na faculdade nos comportamos de uma maneira, no trabalho de outra, em casa de outra. E cada uma dessas pessoas em diferentes segmentos, me olham de diversas formas.Um exemplo fatídico pode ser a própria medicina. Na Acupuntura quando temos um pequeno problema, somos "agulhados" no corpo todo. Isso quer dizer que se você tem uma dor no estômago e toma um remédio, esse remédio pode não fazer bem para seu fígado. Há um desencadeamento de problemas. E não adianta cuidar apenas de uma parte. É preciso equilibrar o todo.Já nós ocidentais, temos especialistas. Uma pessoa que só entende de uma coisa. É especializada em UMA coisa.O que me admira nos orientais e de sempre buscar um ponto de semelhança entre pontos diferentes.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Última vez


É claro que eu não criei este blog afim de que ele fosse uma agenda pessoal, algo que eu pudesse falar meus piores devaneios, minhas angústias, minhas alegrias... Eu não criei isso afim de que sirva como um divã. Mas nesse exato momento vou mudar. Preciso escrever, mas será a primeira e última vez.
É uma tristeza que invade meu coração. Algo que soa como: eu fiz tudo errado. Não aguento o ser repugnante que sou. Não aguento meus pensamentos de intolerância e insanidade.
Eu troquei tudo pelo livros, e deu tudo errado. Ou parcialmente.
Não consigo me relacionar com as pessoas, vejo-as como estranhas e ignorantes. Não consigo conceber um só ser humano como algo de luz. Todas as relações humanas são densas. Talvez seja próprio do mundo em que vivemos. Como eu queria algo de luz, muita luz. Onde as pessoas brilhassem, fossem justas.
Mas até em Deus, que seria o melhor companheiro, o mais cósmico e iluminado, na maioria das vezes não sinto sua presença. Faço um esforço danado para crer N'ele.
Mas concebo um Deus que não tem pernas, nem cabeça, não ouve todo mundo. O meu Deus é cósmico demais para atender minhas angústias. Quiça demais ocupado com um universo tão infinito.
Me sinto o ser programado para atender às necessidades das pessoas que me são queridas. Me sinto secundária demais. Apenas servir, servir, servir o outro.
Não aguento pessoas que se sentem dignas de julgar as outras. Somos todos iguais na mesma esfera.
Não há ninguém melhor do que ninguém. Somos apensas seres condensados nesse corpo que mais aprisiona do que liberta. Liberdade é metafísico demais para a nossa compreensão.
Hoje existe um rasgo, mas amanhã pode não existir mais.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Semana Olbinski

































Me sinto no direito de abusar de mim mesma

Breve apontamento sobre Olbinski

Me soa talvez muito sensato. Um surrealismo que sabe a causa do "ismo".
Muito lúcido. Muita insônia. Inquieto. Delirante. Ah! se posso repetir, prefiro o sensato.
Talvez aos olhos de quem nada sabe. O que sei eu das coisas? Não sou Fernando Pessoa e nem Sócrates. Mas seria muita pretensão fazer um julgamento de valor sobre algo tão sublime, tão sensitivo. Quiçá um equívoco. Um desvio da rota de colisão. Cada semana em que faço essa escolha, reparo depois de alguns instantes o quanto toda a contextualização das obras estão relacionadas àquilo com que venho pensando, sentindo, observando, vivendo, sonhando, imaginando e todos os outros 'andos' e 'endos' que deixamos no meio do caminho.

O belo está nos olhos de quem vê. O sentido está dentro de quem sente.

Cravo-da-índia


Um espaço

Outro tempo

Novo verão.

Nem um, nem outro

se adequam a tua dimensão.

Ser um ser

ou não ser nada além de ser o mesmo.

a mesma coisa

em outros versos

mesmos espaçamentos

novas crases

velhos finais.

O inicio


Hoje mergulhei na vida como quem bebe um copo d'água.

Minha cortina se abriu!

e o que vejo é muito mais que um dia de sol.

Hoje é o presente que me dei.

Mergulhar na essência do dia sem me afogar nela.

Vejo pessoas caminhando,

ouço crianças gritando

vejo o trem passando,

e não tenho mais raiva do gerúndio.

Tenho raiva do tempo que deixei lá atrás,

das surpresas que escondi debaixo da cama,

dos sonhos que guardei pro jantar

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Árvores


As árvores são fáceis de achar
Ficam plantadas no chão
Mamam do sol pelas folhas
E pela terra
Também bebem água
Cantam no vento
E recebem a chuva de galhos abertos
Há as que dão frutas
E as que dão frutos
As de copa larga
E as que habitam esquilos
As que chovem depois da chuva
As cabeludas, as mais jovens mudas
As árvores ficam paradas
Uma a uma enfileiradas
Na alameda
Crescem pra cima como as pessoas
Mas nunca se deitam
O céu aceitam
Crescem como as pessoas
Mas não são soltas nos passos
São maiores, mas
Ocupam menos espaço
Árvore da vida
Árvore querida
Perdão pelo coração
Que eu desenhei em você
Com o nome do meu amor.




Insanidade Irreverência Verdade Respeito Nine of ten


Seriedade Improdutividade Cordão Umbilical Admiração Árvores


Liberdade Calmaria Zen Família Outono

Schopenhaeur


O pessimismo eudemonistico de Schopenhauer busca uma vida, sem dor, sem cor, sem tempo e sem movimento. Talvez muito influenciada pela filosofia oriental Budista, Schopenhauer acabou por encontrar a vida mística numa felicidade inumana, uma vida oposta à vontade de viver. A negação da vontade de potência é única saída pela qual Schopenhauer consegue escapar do ciclo vicioso de carência, desejo, satisfação e tédio. Schopenhauer coloca o sofrimento no âmago do desejo, do qual o homem só deseja a partir de uma privação ou necessidade. O prazer é a satisfação de um desejo que nasce da carência. O desejo e o prazer dominados pela falta. E o homem ocupa um lugar privilegiado no sofrimento. “É nos graus extremos da objetividade da vontade que vemos a individualidade se produzir de maneira significativa, especialmente no homem”. Percebe-se em Schopenhauer que ele hierarquiza os graus de vontade, que está presente em todos os seres. No mundo vegetal um impulso funcional, no mundo animal um impulso motivado. Thomaz Brum diz a respeito “A escala dos seres vivos seguem um movimento em direção ao individuo”.
Sua filosofia profundamente pessimista concebe a vontade como algo sem meta e finalidade. É um mal inevitável que gera dor. Se existe algum prazer, ele é momentâneo, pois é apenas ausência de dor, já que não há felicidade duradoura. “Viver é sofrer”.

Abaixo coloquei alguns pensamentos.

“Cada vez que respiramos, afastamos a morte que nos ameaça (...) no final, ela vence, pois desde o nascimento esse é o nosso destino. E ela brinca um pouco com sua presa antes de comê-la. Mas continuamos vivendo com grande interesse e inquietação pelo maior tempo possível, da mesma forma que sopramos uma bolha de sabão até ficar bem grande, embora tenhamos absoluta certeza de que irá estourar.”

“Se olharmos a vida e seus pequenos detalhes, tudo parece bem ridículo. É como uma gota d’água vista num microscópio,uma só gota cheio de protozoários, achamos muita graça como eles se agitam, e lutam tanto entre si. Aqui, no curto período da vida humana, essa atividade febril produz um efeito cômico.”

“Poderíamos que prever que, às vezes, as crianças parecem inocentes prisioneiros condenados não à morte, mas à vida, sem ter consciência ainda no que significa essa sentença. Mesmo assim todo homem deseja chegar à velhice, época em que se pode dizer: “hoje está ruim, e cada dia vai piorar até o pior acontecer.”

“A maior sabedoria é ter o presente como objeto maior da vida, pois ele é a única realidade, tudo o mais é imaginação. Mas poderíamos também considerar isso nossa maior maluquice, pois aquilo que só existe só por um instante e some como sonho não merece um esforço sério.”

“No fim da vida a maioria dos homens percebem surpresos que viveram provisoriamente e que as coisas que largou como sem graça ou sem interesse era, justamente, a vida. E assim, traído pela esperança, o homem dança nos braços da morte.”
“Poucas coisas deixam as pessoas tão satisfeitas quanto ouvir algum problema ou constatar alguma fraqueza em você.”


A solidão tem gosto de sândalo
E cheiro de ferrugem
Estar só é muito mais que uma cama espaçosa.
A solidão tem jeito de inverno
Tem cara de ateu.
Estar só é muito mais que o silêncio no vácuo.
A solidão tem temperamento oscilante
E cor anil
Estar só é muito mais que um olhar atento.
Solidão é divina
quem sabe é essência.

Espetacularização da violência

Vemos dia a dia os veículos de comunicação mostrando os casos de caos e horror, nenhuma cidade está fadada à violência e ao medo. Assistimos passivamente aos assassinatos e outras formas de coerção. Ficamos estagnados diante deste grande espetáculo circense proposto pelo poder midiático, e percebemos que a mídia não tem a menor vocação ética, são dois paralelos que se excluem mutuamente. O lucro sobrepõe às regras de boa conduta.
Com o intuito de nos manter sob o controle (controle do medo), vemos diariamente noticiários de escândalos, catástrofes, assassinatos, guerras e acidentes espetaculares. Doses homeopáticas de insensibilidade são aplicadas aos telespectadores a cada bloco. Com a superexposição, a miséria tende a se tornar cada vez mais banal aos nossos olhos, e ainda assim temos a sensação de estar bem informados a realidade que nos cerca e um grande alívio por não fazer parte desta estatística do horror. Essa doença chama-se: “banalização do real”. O que vemos são pessoas sem autonomia para formar opinião, uma incapacidade em massa de desenvolver uma consciência reativa. Cremos que a realidade é exatamente esta que nos é apresentada. Longe de ser um espaço de conscientização e argumentação, a mídia vem desenvolvendo suas estruturas no conflito e na redundância. Seu papel se limita a informar, vender suas ideologias e produtos, ora a miséria da condição humana, ora os produtos mercadológicos.
Já é hora de repensar o papel dos veículos de comunicação e estipular critérios de conduta moral. A vida não pode ser banalizada e vendida de forma tão mesquinha. O individuo-espectador precisa de autonomia. Se entreter o público é oferecer o que ele deseja, então não há entretenimento. Há, apenas, submissão.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Crianças Índigos


Ontem vi um filme chamado Mimzy. Nunca tinha ouvido falar. Confesso que dormi em algumas partes. E logo estou suscetível a escrever bobagens. A menina principal do filme, depois de encontrar objetos extraterrestres, fica com uma certa sensibilidade. Muito de longe me fez associar à uma criança índigo.


Aqui temos alguns aspectos para identificá-las:


  • Elas vêm ao mundo com um sentimento de realeza e freqüentemente agem desta forma.

  • Elas têm um sentimento de "desejar estar aqui" e ficam surpresas quando os outros não compartilham isso.

  • Auto-valorização não é uma grande característica. Elas freqüentemente contam aos pais quem elas são.

  • Elas têm dificuldades com autoridade absoluta sem explicações e escolha.

  • Elas simplesmente não farão certas coisas; por exemplo, esperarem quietas é difícil para elas.

  • Elas se tornam frustradas com sistemas ritualmente orientados e que não necessitam de pensamento criativo.

  • Elas freqüentemente encontram uma melhor maneira de fazer as coisas, tanto em casa como na escola, o que as fazem parecer como questionadores de sistema (inconformistas com qualquer sistema).

E no meio dessa pesquisa superficial pelo google, encontrei um site que não lembro qual, que disse que há uma pesquisa nos EUA que comprova que 85% das crianças que nascem são crianças índigos. Ou eu nunca consegui identificar uma ou não entendo NADA de matemática. 85% é gente à beça. Se alguém conhece uma índigo ou entende de matemática dê-me um sinal!

Curiosidade Feminina

Talvez os católicos culpem a sensitiva Eva, que com toda sua sensibilidade ouviu o "psiu" da conselheira cobra. Ou talvez podemos culpar Pandora, que com sua curiosidade aguçada distribuiu os males à civilização. A verdade é que a mulher é sempre a culpada. A questão é saber o que seria tão destrutivo e ameaçador para os homens e para a civilização na curiosidade feminina?
A má reputação da mulher foi provocada pela Igreja, Eva ao convencer o inocente Adão a comer a fruta do conhecimento, foi responsável pela expulsão dois no paraíso e hoje somos todos os seres humanos fadados e herdeiros do pecado dos outros.
Mas como diz Barão de Itararé, depende de lado da porta do banheiro você está.
Cada um acredita no que for mais conveniente. Até não acreditar nada ainda é acreditar.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Vladimir Kush

Não sei como conseguiram esconder Vladimir Kush de mim por tanto tempo. Pessoas cruéis.
Não achei muitas coisas sobre ele por aqui. O que sei é que nasceu na Rússia em 1965! Olha só, temos um surrealista contemporâneo. Com aspectos fantásticos, delirantes e realistas, Kush trabalha mais no campo onírico. Suas obras são como sonhos que esquecemos.
Sei que não que devemos posicionar a arte em escalas hierárquicas, mas Kush realmente conseguiu ultrapassar muitos artistas, ao meu olhar. São espinhos e flores para os olhos.
Cores, luzes, flores
universo onírico surrealista.
Viva a contemplação!

Queria postar mais coisas, porém prefiro que visitem o site dele:
www.vladimirkush.com

Semana Vladimir Kush











segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Você conhece o segredo?

Uma boa forma de ganhar muito dinheiro com a inocência e a fraqueza alheia. O livro mostra o caminho da felicidade, só esqueceram de anexar o mapa. Qual utopia essa "filosofia" pertence eu não sei, mas está muito longe da Cidade do Sol de Tommaso Campanella. Sejamos sinceros, Brasil é um país que não lê. A leitura é uma atividade praticada por uma minoria, e não é por causa do preço dos livros. Essa desculpa não vale. Recentemente abriu uma biblioteca no metrô (RJ) na Central, com aluguel de livros gratuitos, nem preciso dizer que fica às moscas.
Mas "O segredo" é quase uma doença, aonde vou, tem alguém lendo ou comentando com você à respeito. Há uma grande diferença entre LEITOR E LEDOR. Quem lê "O segredo" é ledor, somente lê história. Leitor lê linguagem. Livrecos como estes ajudam a criar uma multidão de psicopátas. Pode acreditar.
O livro simplesmente quer vender um modo de vida americano. E qual é o país que têm diversos psicopátas que matam 8 e depois se suicidam???? Nem preciso dizer a resposta. O perigo está ai, para quem quer ler. O pior é que no site do livro ainda manda você espalhar o segredo.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Pessoas secas

O que é uma pessoa seca? Como seria essa pessoa? Me soa algo esquelético e moribundo.
Será que ser uma pessoa seca é não distribuir sorrisos gratuitamente a estranhos? E as pessoas molhadas como são? Queria tanto conhecê-las, tocá-las .
Será que pessoas molhadas trabalham melhor que pessoas secas? Tem mais agilidade? facilidade em aprender coisas?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Era uma vez

De onde virá esse sopro de vento salgado
que me aflige e molham meus olhos?
Dá um certo prazer ser esquecido
assistir as coisas como se elas não existissem
como se não se reiventasse em sua forma
Como se não esvairasse seu conteúdo
como se essa parte que me sobra
nada fosse além de mim
nada fosse além de seus olhos
nada fosse além do além.

Oui

Eu os esmago com acentos
de silêncio, de euforia feroz
congelados em minha retina
atados pelos nós
em que nós atamos,
abram-se as cortinas
assistam a esse triste espetáculo
um vácuo, uma piscina
que alguns chamam literatura.

Semana Miró










Fazer o necessário

Só se pode encher um vaso até a borda -
Nem uma gota a mais.
Não se pode aguçar uma faca,
E logo testar a sua agudeza.
Não se pode acumular ouro e pedras preciosas,
Sem ter lugar seguro para guardá-las.
Quem é rico e estimado,
Mas não conhece a sua limitação,
Atrai a sua própria desgraça.
Quem faz grandes coisas,
E delas não se envaidece,
Esse realiza o céu em si mesmo.

Tao Te Ching

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Esôfago

Minha boca silencia as palavras
Olho como quem cansou da paisagem
Meus dedos reproduzem os mesmos verbos
E meus versos vão se tornando repetitivos
como quem se cansou de escrever
Minhas folhas se cansaram desse outono
Os meus raios se despedaçaram com esse vazio
Minhas sementes são estéreis
e eu não me repito mais.
Eu não sou duas! e nem dias!
Eu sou um vórtice de energia
que se cansou de existir
dessa existência mesquinha que não passa de um relato.

Silêncio



O teu silêncio quando comigo,
Me toca.
O teu silêncio quando em outros,
Me espanta.
Teu silêncio quando me beija,
Me encanta.
Teus gritos, quanto barulho!
Me imponho...

Intestino Grosso

Somos apenas pontos interrogatórios
Sem nenhuma certeza ou imprecisão
Somos falsos humanos endeusados
Cheios de respostas em contra-mão.
Somo humanos viciados,
Em cartas, recordações e cigarros.
Somos cheios de defeitos encubados.
Cheios de silêncio e casos mal contados.
Estamos cheios é de existir
De uma existência mesquinha que não passa de relatos

Intestino Delgado

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz."
Me desperdicei como uma torneira d’água.
Lá se vão as idéias...
E tudo que idealizei para um dia eu ser.
Mas acabo por não ser isso e ser,
Um dicionário de todos os quereres
Todas as conjugações de um único verbo
Todos os sonhos de uma única pessoa
Todos os vícios de um único corpo
Todos os homens do mundo num ser sem mim.

Experimentação 2

Meus versos escalafobéticos
Minha conversa tão sem consistência
Minha tristeza tão aguda e desnecessária
Meus passos tão cheios de pressa
Se eu entendesse por onde seus pensamentos vagueiam
Certamente não escreveria e nem mandaria pra ti.
Vivo uma saudade constante
Que exige de mim a mais perfeita liberdade
Não sei para onde estamos indo
Mas ao seu lado tudo me basta

Experimentação 1

Toda essa imposição que me machuca
Não vale sequer o meu grito.
Como se bastasse meu descaso
Sigo então sozinha.
Meus olhos já velados de tanta dor
Minha retina tão fatigada desse espelho.
Já não me suporto mais!
Apesar de veres sempre em minha face um sorriso
Dele não se brota minha alegria.
Os meus olhos já tão amargos não se encantam.
E o mundo já não existe mais.

Cansada de esperar?

Cansada de esperar.
Um corpo fatigado pelo tempo
Uma mente corroída por histórias
Estas, as mesmas!
E tantas vezes lida.
E eu por sinal, todas às vezes a escrevi.
Tudo me repete.
Novas pessoas
Velhas histórias
Mesmos finais.
Tudo me cansa!
Esses bares que me viram tédio
Essas pessoas que me soam as mesmas
Esses amores que não me rende nada,
Eu não lucro!
E eu nem sei onde investi.